segunda-feira, 17 de agosto de 2009

CATAVENTO






ah se eu fosse o catavento!
te catava
te punha de frente
e te olhava
depois numa caixa lacrada
te fechava
para não fugires

ah se eu fosse o catavento...


Rio, agosto de 2009.



NADA







só posso crer na existência de um caminho
uma trilha uma senda uma saída
dessa noite desagônica
que chamamos morte

sei que espero segurança
posto que finda a angústia da esperança
sem lembranças
ou janela paralela de tormentos
no eterno esquecimento

com que palavras dizer o que não digo
que música sentir
que montes ou mar para mirar?

estou aqui nada me dói
um instante e tudo são mudanças
da brisa que sopra mar afora
o azul do céu por sobre o monte
tingido do fogo contra o vento
mergulhando fervente no horizonte

ou nada me separa do nada que me espera?


Rio de Janeiro, agosto de 2009.








sábado, 15 de agosto de 2009

UMA OUTRA VIDA






olho à janela ainda não é noite
o vento sudoeste sopra frio

o mar distante diz-me
que contemple o seu mistério

estou só comigo
como barco quase além do horizonte
esqueço
o que sou quem sou
nesse meu tempo de um instante

olho o marejar e as ondas que se vão
algumas partem sem sangrar
outras regressam no eterno movimento de chegar

a consciência vaga cada vaga
o céu azul outrora
queima
os últimos instantes do sol

tive nesse instante a ilusão vivida
mas pouco importa
ainda tenho o céu e o mar

e a pena que tenho merecida
vi-a clara esclarecida
ao voltar à outra vida

Rio, agosto de 2009.




terça-feira, 4 de agosto de 2009

FADO







sei que virás traiçoeira
alheia impessoal
em meio à bruma
cinza e soturna

não me causas náuseas
tudo será natural e calmo
no caminhar que me reservas
à terra de ninguém

tudo sabes do meu fado
mas não perguntarei
disciplinado
seguirei

Rio, julho de 2009



quarta-feira, 29 de julho de 2009

DÚVIDA






no caminho inverso
nem vejo
nem ouço
e angustiadamente
calo
nos meus versos

inútil verdade do que sou
escrevo
sobre o que não sei
se o que vejo não é

Rio, julho de 2009


quinta-feira, 23 de julho de 2009

ANGÚSTIA POÉTICA







[uma teoria do isolamento]


desperto do sonho contemplo a imensidão
o infinito liberto no ato de pensar


quietude

que o pensamento não alcança
e a palavra estrangula

diálogo sem som
o pensamento habita o limiar
intangível
no surreal do sonho
onde hesita angustiada a metáfora

a palavra não me basta

Rio, julho de 2009



...numquam minus solum esse
quam cum solus esset
[Catão, por Cícero]

A ILUSÃO DO REAL





aparência ou percepção sensorial
é enganoso o universo do real

a alma só
contempla a verdade invisível
do ideal
por detrás das coisas
atrás do detrás
intangível

*

escrevo para enganar-me
submetido às ciências
e à lógica implacável
o poema é meu delírio
nunca será metafísica
mas pobremente física

organizo em palavras
o que não lido
com a matemática

neste submundo
estou só comigo
mas não tão só
que estou comigo


Rio, julho de 2009