domingo, 23 de agosto de 2009

ODISSÉIA NO ESPAÇO - 2001









MEU DECÁLOGO

I


penso por exclusão

em paralelo

do que sou

convergente

em linhas divergentes

destemido

mas hesitante

insistente

reconhecido

desconhecido

incongruente

e quem sabe já vencido


nada do que procuro acho

nem nada nem ninguém

II

não penso

pra que inteligência

só p'ra ser

o que não sou?

III

no vazio

talvez me encontrasse

perdido nesse deserto

de sentimentos incerto


IV

olho-me no espelho

o espelho me olha frio

são olhos que me ignoram

a mover-se ao avesso

V

a emoção não me toca

são os neurônios

sinapses

que se chocam

VI

sinto mas

não sei dizer o que sinto

VII

a circulação não garante o coração

VIII

minto enquanto penso

assim não sinto

se penso sinto e minto

assim não penso

IX

o corpo deixa a alma

se não vivo

X

corpo

desejo

sexo e sensação

e onde fica o coração?



NYC, agosto de 2001






SOB ORIENTAÇÃO SUPERIOR









[de um comentário do poeta Filipe Couto]




"...eu não conheci ninguém parecido com você nos meus trinta anos..."

um amor idealizado
fora do tempo
é sonho sem itinerário
de um instante passageiro

que nos remete à fantasia
[na boa!]


para esse pequeno instante
valho-me da poesia


e a canção dos trinta anos é pura nostalgia
de um sonho sonhado à toa...




ou como quis Filipe




"Um amor idealizado,
fora do tempo,

sonho
de um instante passageiro,

remete-nos à fantasia."





Rio de Janeiro, agosto de 2009













sábado, 22 de agosto de 2009

SCHERZANDO






o diálogo nunca se estabeleceu
entre meu espelho e eu
na verdade que transparece
e a memória sempre esquece

há um calafrio no convívio
entre quase inimigos
se um detalhe pífio
não o conservasse comigo

o espelho é meu
moldura antiga
dizem que foi de Romeu

mas aqui nesta cantiga
foi Julieta que valeu
pois há muito nem me liga


Rio de Janeiro, agosto de 2009




REDESCOBERTA








perdi meus sonhos
abafei-os por toda a vida

fui sonhador
mas
em lamentos e incerteza
em mim rebelou-se a natureza

é urgente agora
redescobrir cada palavra
alegria liberdade
a busca da verdade
é urgente a claridade


Rio de Janeiro, agosto de 2009





UM DESEJO UMA RAZÃO



TRINTA ANOS
[revisto e reconsiderado em busca do lírico que há em mim]


eu queria ter trinta anos
e voltar a sonhar
e fazer planos
e não contar os dias
e viver cada instante
eu queria ter trinta anos
e crescer para a vida
e descobrir novas trilhas
e amar novamente
eu queria ter trinta anos
e vencer o tempo
e recriar os momentos
eu queria ter trinta anos
e voltar a viver

eu não conheci ninguém parecido com você nos meus trinta anos...

um improviso, 2008/2009.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

URGÊNCIA




para Aninha e Alice



[a] a crise

cresce em mim o sentimento
arquejante sufocante
à margem de meus versos
da presença indesejada
que pelos passos do tempo não demora

acordo cada dia em meio ao sonho
com a fronte descorada
trêmulo de medo
na coragem de dizer - não quero
não não a quero agora

e no leito adormecido
o sonho recomeça
e o beijo é frio
mas a face despudoradamente jovem
sorri na tentação
e diz - sou eu!

espero o medo mas não me angustio
pois o que vem é esperado
triste suspirado
é parte de um desamor bem conhecido
que a vida traz do nascimento

peço tempo à imprudente jovem visitante
velha senhora transvestida
de pé à beira de meus versos

[b] interregno

lembro a ficção
e prezo a noite
silencio o escuro e me consinto
fugir do amor não desejado

[c] decisão

não não direi o eterno adeus agora
acordo em plena aurora
que me cheira a madrugada
o alvor do dia que renasce
o tempo renovado
e o urgente amor
na reinvenção da alegria

duas vidas iluminam-me o futuro
a curiosidade me aquece
no que são
e tornarão
no bulício jovem da aventura

é tempo de mudar o sonho
é urgente resistir
é urgente
multiplicar o beijo
caminhar
viver para sentir
e decididamente amar


São Paulo, 13 de julho de 2009




AVÔ








eu não supunha as alegrias do avô
a cada dia lembrar
Ana Luiza e Alice que me vêem
como o Amor que regem sem saber

sou eu e não me esqueço
a parte desejada
porque sou quem lhes consente
ser o que são

crianças e vontades
na roda da esperança
de tudo e ilusões

que canto a realizar
tão pronto ouço o pranto
e as vozinhas que suplicam "vô!"

Rio de Janeiro, agosto de 2009