ah se eu te pego
se eu pudesse perenizar o que não tenho
e o desejo ultrapassasse a realidade
ah que prazer eu teria aqui
ah se eu te pego
quem sou seria outro
a juventude voltaria ao corpo
e tão cedo não me veriam morto
ah se eu te pego
sei que ficaria louco
tendo-te em meus braços
de gritar de prazer
dormiria rouco
ah se eu te pego
ah se te pego
o sonho que terei sonhado
tornar-se-ia realidade
para viver sem pensar na idade
ah se eu te pego
[e mudo o tempo não emudeço]
quem sabe
se te pego
serei feliz aqui...
Rio, fevereiro de 2012.
outro dia apenas dias poucos passados
ouvi quase em segredo
tua ansiedade
tu chamastes o desconhecido para nada
para o fortuito de um encontro sem alma
ouvi tua chamada sutil
desencontrada
quase infantil
para um nada que se perderia no tempo
de teu pensamento sem memória
e o corpo frio
pouco tempo faz daquele momento
que tudo transformou
mas sou eu a lembrar aquele átimo
e dele construir o sonho
basta fechar os olhos
Rio, fevereiro de 2012.
dias de lembrança são o sonho retomado
um retorno ao passado
alento para um intemporal futuro
esse vale da memória
acelera o passo na escalada
da colina que se depara
esperamos
inevitável e suave
embora o outono pareça decadência
nele aprendemos a preparar o inverno
Rio, janeiro de 2012.
para chegar ao futuro
o passado tem de passar
enquanto teimosa a lembrança
quer-nos fazer recuar
deixa deixa o passado
e tudo que nele condena
escolhe o bem
que cuidadosamente viveste
e o aproxima de ti
vivas inteiro o que és
entre a manhã que promete
e o poente que te faz descansar
trabalha de dia ama a noite
se te queres entender e ser claro
o mal que passou são amarras
que não te deixam avançar
desata todo os nós
vive teu sonho
constrói a esperança
e a manhã alegre de orvalho
pura te saudará
Rio, fevereiro de 2012.
caminho pela noite
orla quase molhada pela maresia salgada
à beira d'água
onde o mar se espraia a teus pés amado
Rio de sonhos
e de todos os amores
caminho passos lentos
alegre e triste no pensar a saudade
do que não tenho
no coração que não consigo conquistar
distante longe um longe perto
de mim se mantém distante
hesitante
de ser meu teimosamente
no desejar-me
na decisão de viver sempre em mim
a luz dos olhos de quem ama
olha-me e não vê
olha e recua ao avançar
e quando cruza seu olhar
ao olhar dos olhos meus
penso me amar
sei amor que vives nas praias do Rio
e insiste em se mostrar
sei que existes
vem a mim
para que eu deixe de ser triste
Rio, janeiro de 2012
...por onde inseguro inseguro passe
como o louco sem loucura de Pessoa
serei feliz
se puder entre o céu e a terra dessa história
comum sem tédio ou alegria
sobreviver seguro de um só gesto
um só que justifique haver vivido
a frase que a voz inteligente brada
quebra a lembrança da amargura
de não haver sentido em noite escura
o quanto a vida é vida para ser amada
..."não deixarei você por inseguro
será você a deixar a insegurança"...
dizia a amante em seu lugar segura
no drama entre loucos sem loucura
para insistir no tema da esperança
não fecharei a história se desperto
entender loucura e insegurança
para deportado em vida
retomar ainda o amor gerando afeto
Rio, janeiro de 2012.
uma saudade abstrata toma conta de mim
uma ausência como o vazio sideral
sem gravidade que atraia
sem mesmo ar pra respirar
aqui da janela de casa
ouço o mar
ondas se derramam na areia
e se recolhem pra trás
abstraio-me
longe do mundo desejando vida
não te podendo encontrar
Rio, janeiro de 2012.