domingo, 19 de fevereiro de 2012

RACIONALIDADE E POESIA



leio um poema em cada vida
em cada vida ensaio um poema
e dos olhos do poeta
a poesia vem para as mãos
incapazes de sentir
pois que pensam


racionais


que posso senão mentir
ou certamente fingir
dos olhos fazer coração
acelerado no peito
refrigerado nas mãos


quantos sentimentos senti
tantas vezes fingi


Rio, fevereiro de 2012.








SENTIMENTO/PENSAMENTO



o pensamento é o que penso
do sentimento que sinto
mas o abstrato de pensar
em nada impede meu sentir
ainda que jamais consiga em palavras 
transmitir
o que sinto
que palavras são pensamento
fingindo ser sentimento




Rio, fevereiro de 2012.




sábado, 18 de fevereiro de 2012

CARNAVAL E METAFÍSICA



todos passam sob minha janela
o arlequim o palhaço e a donzela
tipo raro no espaço destas ruas
no tempo dessa bacanal


desde Eva mulher era mulher
de um homem traindo-o com outro
da janela vejo essa donzela 
de todos traindo-os com um


os homens continuam machos
são ainda hoje viris
mas exibem o que se sabia
mesmo antes de acontecer


ninguém tem pai nem mãe
nem os acompanham irmãos
gozam intensamente existir
e se amam amando-se em comum


os ruídos que me vêm dessa janela
são ruídos trocados no silêncio
dos pares que os sufocam
nos orgasmos da solidão


não há erro nem condenação
nada me adianta prever
o que matematicamente não sei
nem somar nem dividir para saber



nessa dança ritmada e rebelde 
passam todos no universo diverso 
que se move no carnaval 
metafísica é minha evasão



Rio, fevereiro [carnaval] de 2012.






sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O DISCURSO DE MEUS ANOS


Luis de Camões 
[entre aspas, trechos do soneto 108 da Lírica]


"errei todo o discurso de meus anos"
ai de mim neste fim tão combalido
não me direi apenas que errei
serei mais um de enganos cometidos
morrer sem apelo só sofrido


tu não me vês nem eu te vejo
mas sem pensar apura-me o desejo
penoso devagar fundo esperançoso
de amar esse amor suspiroso
de "erros meus, má fortuna, amor ardente"


por poesia mais que eu fizesse
sem futuro não sinto nem mais quero
em meus cantos revelar a minha pena
"tudo passei; mas tenho tão presente"
o grande amor que vivi tão docemente


e mais erro quanto mais escrevo
não mais farei o que nem sei
se verdade foi ou mentiroso
o amor ou minha dor
de que "não vi senão breves enganos"
vem amor vai amar vem
a ansiedade repetida
ai de mim 
"errei todo o discurso de meus anos"... 


Rio, fevereiro de 2012.








segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

ESTE CENÁRIO É UMA BELEZA




...depois de um ano de silêncio
ouço agora o tamborim
e passos na orla de ruídos
onde reina o surdo 
a ressuscitar vivos e mortos...
passa o povo ignorando a solidão
tudo é paixão
de arrebentar o coração

este cenário é uma beleza
não há tristeza
é carnaval neste meu Rio

Rio, fevereiro de 2012.




domingo, 12 de fevereiro de 2012

TRILHAS E CAMINHOS



não há um caminho
mas uma trilha feita ao caminhar
não existe um destino
mas um lugar onde chegar


"qualquer caminho leva a toda parte" [FP]
nenhum segredo
que escolher é consciência de saber 
caminhos que dissociam
todas as partes da abstrata escolha
que é tua


o ato de excluir é consciente
afasta cardos e espinhos
incluir está em ti
é tua trilha
por onde levas tudo que tens
ao teu lugar


Rio, fevereiro de 2012.










sábado, 11 de fevereiro de 2012

O SEGREDO



que sabemos do que se esconde atrás das nuvens
onde o tempo passeia em fuga ligeira


sei que no éter dormem os sonhos
que a noite traz como desejos quase sempre em segredo
repetidos como ecos de pensamentos abstratos
sem palavras 
entre beijos e lágrimas

pode ser música
que nos chega pelo sentimento do mundo
como gotas de chuva
quando a nuvem pesa e nos diz
estou aqui 
choro


imagino-me dobrando ali a esquina inexistente
num céu do outro mundo
em cor azul da liberdade de viver 
o desejo conhecido 
e o segredo
indecifrável de amar


Rio, fevereiro de 2012.