caminho a trilha dos poetas em busca de palavras
cada dia
encontro o som que me extasia
paro a ouvir a imaginação
testar a frase como ideia
sem perder o controle do que pensei
jogo aleatório conjuga no ato de escrever
o som e a palavra
sempre o ritmo que sinto dentro
penetrando a intimidade
que se lança fora
inadvertidamente
o ato de pensar cessou
a palavra ficou
a frase registrou
o som ecoou
será isso o poema...
Rio, maio de 2012.
intermediando dias
a alma fala do real interrompido
às noites tornadas fantasia
um vento leva ao sonho
e à lua do outro lado
tudo é difuso no sono
claridades ofuscam o entendimento
morte passageira
entre sonhar e ser
a dor agita as águas da memória
turvas ainda ao despertar
a vida sobe a suspirar à tona
o ar que alivia
enigma da consciência
qualquer coisa fica
talvez o amor que contagia
a vida retoma madura
o desejo de existir
Rio, maio de 2012.
lua alta sobre pedra rasa
prata no mar
noite de equívocos
sob o luar que me cega
estrelas imaginárias
a quem confesso o que sou
sem jamais ter sabido se fui
pedra quase rasa
batida do mar
posso chamar-te assim
[saudade]
desde que te encontrei
senti que tu me encontravas
enquanto fugia
dirás é tempo ainda
o que não é
mas fantasia
pensar é desejar ter
o que já foi
mas não é mais
lágrimas derretem o espelho
sou assim
no que é noite às vezes
sem alegria
lamento ultrapassado sobre a pedra
onde chora o mar
no torpor que me tomou o tempo
um sonho me doía
estrangulado
lua alta sobre pedra rasa
o tempo consumido
rio que corre para o mar
dói
Rio, maio de 2012.
asas voam liberdade
a claridade inviolada
como velas navegam
altas e brancas
a rota sem rumo
de não chegar ao fim
em voo não há brumas
à noite nenhuma solidão
flutuante entre o que fui
e o que sou
vejo o mar
e horizonte ao fundo
espaço sob azul
velas e asas nada mais
navego onde termina o tempo
tudo somei nada perdi
consciente da brisa que me eleva
e sopra ainda
se medisse sentimentos
mediria o sol que me ilumina
o céu aberto
assim na curva imaterial da alegria
presente
tão jovem tão velho tão gente
vou que a curva é da descida
neste voo de chegada
a um lugar que não sei
velas enfunadas
asas
o que sei deixo no espaço
vazio de meus versos
Rio, maio de 2012.
VAGAPROSA - alguma prosa, conversa séria e conversa fiada
http://vagaprosa.blogspot.com.br/
ITALIANITÀ - blog fechado, sobre minha vida italiana
http://ricordanza.blogspot.com.br/
a tarde cinza voa com a gaivota
suave silenciosa passa
e aqui à beira-mar
insiste em pulsar
meu coração
e sem querer deixo passar
tudo que fui
para não viver nem o que sou
Rio, maio de 2012.
mais grave que a dúvida é a certeza
que tudo diz sem o saber
e tudo meu incerto e dúbio
não sabe nem mesmo ser
perdido no pequeno da visão
o que vejo é tudo
e é tão pouco
o que me pede o coração
diante de mim o mar imenso
por sobre um céu infindo
e sou só sem desejar
exceto o que é meu sentimento
por isso sem certezas já duvido
do que vejo e do que sinto
por tudo que em pensamento
sei que finjo sei que minto
"Impromptus", primeiro de maio de 2012.