"Porém, pera cantar de vosso gesto a composição alta e milagrosa, aqui falta saber, engenho e arte." Luís de Camões ... assim encontrareis aqui palavras magoadas a tornar o fogo frio e dar descanso a minha alma condenada ...
sábado, 18 de agosto de 2012
SEMEIA SEMEADOR SEMEIA
deixa cair a semente na faina de semear
um dia tu verás o fruto que lhe dará outra semente
para a faina de semear
ciclo insondável do retorno eterno
dos anos de minha vida
aos anos de minha vida
e de outras vidas que me sucederão
não não me neguem o mistério que há nisso
mas não me tragam um deus qualquer
para explicar essa trilha circular
sol ante sol e a lua de permeio
a antever o dia entre noites
de que meu sonho é memória
e o sono o retorno à nua paz
eterna um dia sem mais nada a semear
Rio, agosto de 2012.
CAMINHOS
ah sei bem que não consigo ter tudo que amo
que a estrada se divide
em passos de diversa direção
assustou-me sempre a monotonia linear
sem sobressaltos e paixões
sem o livre gozo da vida
no caminhar de passos iguais
optar ao fim da caminhada
é agora pesadelo a interpor-se
entre sonhos prenunciados
no cruzamento de amores todos
de insuspeitada emoção
que as trilhas sempre se dividem
e a alma sofrida experimentada pronta
hesita entre caminhos
sente ainda aguda a dor da opção
Rio, agosto de 2012.
INDIVISÍVEL
...se me olho de frente vejo apaixonado
a vida e tudo que me ofereceu
no tempo que tão breve passou
lembro tudo
cada gesto é uma história
cada história uma emoção
conta finalmente o somatório
da vida a emoção indivisível
para caber no coração...
para caber no coração...
Rio, agosto de 2012.
domingo, 5 de agosto de 2012
SEM QUERER
"...se a flor flore sem querer..." (1)
somos assim por toda vida
desde o nascer
inconscientes florescemos
vivemos sem perceber
desaparecemos
sem mesmo querer
há quem viva a fantasia
de fingir gestos
a ironia
de supor que sua sorte'
é melhor
sem contar o que passou
inconsequente fui eu
vão-me os dias
sem florir
quando não resta
nada a medir
o tão pouco
senão tão pouco quanto morrer
sou assim uma edição
nem mais tardia
nem temporã
breve meu tempo
recordações
um tempo por acaso meu
este sou eu
(1) Fernando Pessoa
Rio, agosto de 2012.
sábado, 28 de julho de 2012
UM DIA PARTI
e minha ausência
fez-me voltar no tempo
quando a saudade era outra
e tudo estava por vir
e minha ausência
fez-me tornar ao passado
quando o futuro era outro
e o destino era fado
ah como foi bom sair de mim mesmo
e reviver nesse sonho
um tempo que já vivi
e esse sumário é memória
do dia quando sem o saber
assim de repente morri
Rio, julho de 2012.
ORAÇÃO
se a vida é como é
estou tranquilo
na lembrança do que me faz feliz
estou confiante mas temeroso
dos sinais de um passado
que não me pertenceu
abandona-me à tristeza o triste recordar
todo pecado
que não foi meu
e no entanto conheço o que passou
a memória traz à lembrança
infelizes
insensatos a errar irregulares
no erro de ensinar
a distorção
de uma falsa ética da atração
ameaçados
os que sucumbiram oram comigo no presente
pelo futuro
peço-lhes a cura e a conversão
Rio, julho de 2012.
quarta-feira, 25 de julho de 2012
PAISAGENS DE PASSAGEM
ah ser poeta ou pretender
sem forma sem fundo
arrítmico assistêmico
missil balístico sem direção
entre o que sou e o que pretendi
pouco fiz mas acreditei
no que passou
essa marca ou impressão
com meus olhos vi
desejo e ambição
paisagens em passagens
e mais nada
Rio, julho de 2012.
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