segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

DESCONSTRUÇÃO



ah rio que me leva a vida
e deságua sem memória
no oceano de recordações perdidas
sigo-te sem me perguntar da fonte
sigo teu modo de ser água
onde toda lembrança se desfaz

sei que passas desfazendo gotas
na inútil sede de meus olhos
que se recusam a ver por não saber
donde vens
para onde vais
e curiosos sonham sonhos que se sonham
na memória de não lembrar

segue teu curso deixo-me estar
no lugar de não pensar
no que serás adiante
onde difusamente sei que estarás

Rio de Janeiro, dezembro de 2012.




 

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

DESEJO



dizem que estou triste
em pleno verão

não não 


sonho com outra forma de viver

talvez incorpóreo pra ser feliz

dispo-me

esqueço as honrarias
tanto por crer quanto descrer

mas não sou triste


não vejo a diferença

dos que pretendem a alegria
como forma de viver por outro caminho

ainda sonho


visto-me
em busca do verbo
para louvar o verão
em pleno inverno
ardendo de paixão

a palavra é memória de meu esquecimento

nunca está
para dizer as coisas que se dizem

ah palavra indigente

do verso sem sentido
no poema inobtido

desisto quando penso no sonho que não sonho

ao recordar-me de ti
não sou triste

são teus lábios que quero


Rio de Janeiro, dezembro de 2012.










segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

SILÊNCIO



o silêncio é falta de palavras
é poesia se o escuto 

olho o mar as gaivotas
sinto o vento que sopra a sudoeste
vejo céu 

ondas em seu movimento pendular
a cidade e o comércio de Natal

crianças ainda vibram
com o mito do Papai Noel

desolado
solitário
queria ter com quem falar
mas hesito
dentro de mim nada canta
e tenho medo
da ausência de ternura
do silêncio sem palavras
e não me encontro  


Rio, manhã de dezembro de 2012.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

VIDA



aos amigos que se pronunciaram a 1 de dezembro
e aos outros que se lembrarão


"leve e passageira" diria Pessoa
sorrateira digo eu
setenta e dois anos passados
prenunciando o fim
indesejado

nem o tempo nem o vento
se não estou enganado
fazem-me descrer
do outro do sonho e da vida

sete décadas somam setenta
no meu tempo de viver
e mais dois de sobrevida
não mudam o encanto de ser

sou quem sou
e assim hei de ficar
como pedra a perpetuar
sem tédio amante de estar


Rio, 2 de dezembro de 2012.









quinta-feira, 1 de novembro de 2012

DE GRAÇA


para Graça de Souza Feijó

não posso ler um poema sem sentir
que sou eu e um texto
de um estranho que não eu
uma seleção de versos
que alguém pensou ou não pensou
e escreveu

a interpretação é obra da cultura (ou incultura)
de cada um
por isso não gosto dos críticos
que desejam extrair do que outro escreveu
um sumo só seu


Rio de Janeiro, novembro de 2012








AINDA O POEMA

o poema canta 
o que não diz

uma tortura

compõe-se a divagar 
no lapso indeciso
entre o ser e o não ser

o poema é leve
alegria ou tristeza
não importa
é alma também

o que pensamos não vai nele
mas o que não sentimos
nele está

fundo forma o belo o encanto
por isso canto


Rio de Janeiro, novembro de 2012



ENTENDENDO O POEMA

o poema não se explica
lê-se
tem ele três significados
o primeiro
o segundo
e o terceiro

no primeiro o poeta escreve sem saber por que
no segundo você lê
no terceiro (e o quarto o quinto o sexto)
será o que for
sem que eu saiba por que

ah o poema



Rio de Janeiro, novembro de 2012