sábado, 3 de agosto de 2013

VERSOS


versos nunca são meus

palavras estranhas a minhas mãos
surgem ressurgem uma outra mais outra
sob meus dedos
perdidas sobre um papel 
qualquer

Rio, agosto de 2013



PALAVRA



no papel a palavra trespassa
o eu que escrevo

inércia sem ritmo ou sonoridade
na vastidão infinita dos sentidos

impulsos sobreviventes 
onde me afogo 

Rio, agosto de 2013



sexta-feira, 26 de julho de 2013

FANTASMA

"vô, fantasma é de verdade?" 
[Alice, cinco anos]

ah fantasma deixa pra lá

tu não és vero
que lençol branco
que sombra 
que vento frio
que estalido
que ruído
que nada

não me venhas com barulho

só assustas quem não vê
tu és mesmo lero-lero


Rio, julho de 2013


NETOS


tem a vida um sentido

perguntam todos
e assim tem sido comigo
no que sou igual
estupidamente igual
a deixar que os dias passem
nessa torrente

mas


quer eu pense em vão

ou não
na tarde desse inverno
o sentido de vida ousa
contar quatro múltiplos de dois
filhos cuja lembrança ainda acarinha
a nos dar netos
magia de crianças
pequeninas duplicando o tempo
cariciosas voluntariosas
um a um uma esperança
um bem um bem estar
da mesma voz
que nos embala estridente
meiga branda nunca triste
de multiplicadas esperanças


Rio, julho de 2013




quinta-feira, 25 de julho de 2013

SONHO


o sono ganhou o sonho
gradualmente
primeiro os olhos fecharam
pálpebras vermelhas de cansar
hesitou
depois ganharam a noite
sem pestanejar
e o sono dormiu tarde
mas sonhou

Rio, julho de 2013



quarta-feira, 24 de julho de 2013

A NOITE DE MEU TEMPO



fantasma de magia incerta
o sonho é pálida luz no sono 
como passeio noturno sem destino certo

durmo desperto desmaio diante da razão
que me faz viver de esperar
o que a fantasia não trará

sou noite em parte do meu tempo
beiro o real e quase esqueço
o essencial do que preciso
no vácuo entre o que sou
e o prazer de ser

Rio, julho de 2013






segunda-feira, 22 de julho de 2013

A NOITE ILUMINADA

[recuperando versos antigos para Beatriz Azevedo]

a noite que pressinto é clara
vem do azul profundo a luz que a alumia
na espreita malandra da aurora
atrás em céu escuro
da luz de estrelas 
irmãs do sol que ignoram

a noite rege o coração
não o que bate sessenta e três vezes por minuto
não o que sangrento tinge quadros santos
não o coração que nunca tem razão
mas o coração que ama
racional e intelectualmente a vida

sim às noites sou apaixonadamente claro
os olhos encantados por constelações de amores
humanamente decidido a viver a vida
como antigo marinheiro sobre a gávea
a encontrar versos nos cais distantes
e a magia iluminada de pensar poemas


Roma/Rio, janeiro de 2003/julho de 2013