"Porém, pera cantar de vosso gesto a composição alta e milagrosa, aqui falta saber, engenho e arte." Luís de Camões ... assim encontrareis aqui palavras magoadas a tornar o fogo frio e dar descanso a minha alma condenada ...
sábado, 11 de abril de 2015
ETERNIDADE
o sonho interpôs-se para representar a vida
e a beleza dele fez-se realidade em pleno sono
e adormeceu em mim por todo o tempo
por isso sou quem sou e nem um outro
sabe que minha tristeza é alegria
e meu prazo é o despertar da eternidade
a cada dia um novo sol brilha no horizonte
e o nascente não é prenúncio do poente
pois dura cada instante
ah se eu soubesse desde sempre
que o tempo é agora e não demora
viveria hoje e sempre a eternidade
mas sei que tudo foi um sorriso
que para mim se abriu
na consciência de que a vida é eterna
e terna é a sensação sutil de bem vivê-la
Rio, abri de 2015.
domingo, 5 de abril de 2015
UM SÓ?
não ouço vozes
silencio
no lapso impreciso
em que falo
sou dois ou três
em um sozinho
seria mais
se me soltasse
pudesse ser o que não sou
nem sei a escuridão
sob o claro sol
despertaria de sono em sonho
tanto a dizer
como calar
vozes da noite escura
talvez outros ouvirão
no interstício de dois a três
ouço falar
enquanto só
não sei viver
Rio, abril de 2015
sábado, 4 de abril de 2015
DESCONSERTO
se escuto nenhuma voz
ouço o tempo
uma revolta que reaparece
e a voz que transmite
o que há muito fenesce
não há mágoa
mas saudade do sonho
e da água que passa
tenho na memória lembrança
todas elas de esperança
tudo velado tudo acabado
passado o tempo de criança
do tempo que se foi
resta a riqueza do que será
esqueço tudo pois
para esperar amanhã
Rio, abril de 2015
sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
VERDADE-MENTIRA
é outro que fala
não é comigo
tudo que digo
há uma chave
com fechadura
diria Borges
escrevo de caradura
se eu viver
nada é verdade
na minha idade
podes crer
Rio, janeiro de 2015.
domingo, 25 de janeiro de 2015
IMPROVISO
tenho tempo ainda para a primavera
quero viver
sentir ar fresco
das manhãs de outros
ousarei o sonho alado
de saltar a noite e não descer a escarpa
quando muito pouco me ofereces
tenho tempo para rever o que já fomos
anônimo farei segunda voz
se ouvires o meu canto
tenho tempo para abandonar o pranto
eu e tu abandonados sós
entoaremos todo nosso encanto
teremos tempo para sermos nós
Rio, janeiro de 2015.
HOROWITZ-CHOPIN
enamorado da leveza
Horowitz e suas mãos
enquanto toca Chopin
o amor desponta
e encantapresente deslizam notas como um sopro
e tudo é ouvir e sonhar
quem não somos
mas sentimos
Rio, janeiro de 2015
sábado, 24 de janeiro de 2015
NOTTURNO
[ao som de Chopin, Noturno Opus 9 número 2]
hoje a paz é tão triste
saudosa da noite que se foi
onde esperança falta
do que não se conhece
do que não se esquece
à luz da consciência baça
o sentimento noturno
é suave no mistério que me abraça
e o som de um piano insiste
em mi bemol maior
silencioso e triste
Rio, janeiro de 2015
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