"Porém, pera cantar de vosso gesto a composição alta e milagrosa, aqui falta saber, engenho e arte." Luís de Camões ... assim encontrareis aqui palavras magoadas a tornar o fogo frio e dar descanso a minha alma condenada ...
domingo, 2 de abril de 2017
RIO
uma tarde de milagres
março de 2017
olha a praia e o céu azul
a morena gostosa de seios à mostra
o garoto malhado com a prancha de surf
suspeito que estou num dia feliz
é Ipanema a mesma de Tom
e Vinicius e seus amores eternos
a vida é leve
talvez o dia que me faltava
desconsideradas a ruína do Rio
e seus corruptos sempre suspeitados
os deuses entretanto continuam presentes
já passado o verão de muito sol
cá estou a espreitar a vida
nesta colheita ensolarada
que no Rio nunca nos falta
palmeiras dobram suas palmas ao vento
um tamborim quase um samba rasgado
na calçada é carnaval
na quaresma de resguardos cristãos
não posso esquecer a juventude aqui
de janeiro a janeiro sem outros deuses que não a alegria
em dias claros de excitação
no boteco da esquina
os biscoitos Globo e o queijo assado
mais a empadinha de camarão
Rio de praias brancas e montanhas verdes
dotes da natureza
equilíbrio entre sonho sem lapidação
e a evocação do amor
da namorada de mãos enlaçadas
nos domingos azuis de areias brancas
convidando ao amor
Rio de minha paixão
Rio de Janeiro, março de 2017.
sábado, 1 de abril de 2017
TRANSIÇÃO
gosto do mar ao fim da tarde
plácido e acolhedor enquanto o sol se põe
quando o crepitar fictício de fogo
fecha o dia no horizonte distante
gaivotas piam suas despedidas do claro
sobrevoam altas o mar que escurece
e o tempo segue o curso inelutável
entre o dia e a noite que se fecha
o mar é um momento de paz
como a brisa que sopra para a terra
e desvia velas de seus planos marinhos
a ilusão de sonho precede o sono
um ponto flutua em perspectiva distante
fico comigo esperando amanhã
Rio de Janeiro, março de 2017
sexta-feira, 31 de março de 2017
MAIS DE DOIS
um impostor viveu sempre em mim
só que à maneira inversa
ser eu foi ser diplomata
executivo ou negociador
o dia todo
enquanto o outro lado de mim
era caipira ainda
aquele do interior
já viu só
o eu que verdadeiro sou
é o caipira
esquizofrênico sempre soube o inimigo
caipira dirão os pouco amigos
mas sempre fui quem não pode
para isso ser concebido
no que um é sofisticação
no outro é coração
e amor que acontece no fazer o que não é
um a olhar o mundo do alto
o outro a vivê-lo no chão
eis minha confissão
sou dois em um
ou mais que dois
ator capaz de fingir
a dor que nunca sentiu
o amor que sempre viveu
caipira que gosta de ser
o mesmo momento em conflito
no paralelo que é convergente
de uma só vez um destino
caminho que leva a toda parte
parte e reparte
um modo nada sutil de estar enganado
sem enganar a ninguém
um que escondo outro
que me esconde à vez
olhado por mim
entretanto
sou eu mesmo
nem composto nem simples
comigo só posso ficar
Rio de Janeiro, março de 2017.
IMPOSTOR
isso de não ser poeta rendeu
amigos que me estimulam
outros que me aplaudem
mas tentarei ser modesto
nada de Carlos Drummond
nem mesmo de João Cabral
mas existe um eu que não conheço
que me embala que me constrange
e nem contato tem comigo
mas escreve altas horas
reescreve sublinha em conflito comigo
quer-se ver em páginas escrito
aff... não me compra
no máximo ouço-lhe o canto
com certo encanto
contradiz-me em intenções
e me diz
publica
no que nele é pretensão
em mim é gesto modesto
e resisto
acho que é impostor
Rio de Janeiro, março de 2017
quinta-feira, 30 de março de 2017
POETA NÃO SOU
isso de ser poeta é uma frustração
pois não sei falar de flores
nem dos aromas de um jardim
e quando trato de amores
o pensamento trava
lembro sempre o poeta
que decifrou o segredo das flores
que têm um tempo de vida
em pétalas se desfazem
e como tudo morrem
engana-me cada dia a alvorada
pois que o sol se põe no poente
e não sei cantar estrelas
nem fazer juras de amor
sob a lua tão pálida doente
ser poeta
serei tão limitado e pesado
que depois de muito pensar
dar tratos à imaginação
rabiscando feito pateta
decidi não tentar
não sou poeta
Rio de Janeiro, março de 2017
QUE FAZER
que faço eu a escrever poesia
é a pergunta que se equilibra em outra
que faria eu se não existisse vida
assim perplexo lembro-me das palavras
que me servem para criar versos
regressos de mim mesmo à minha liberdade
vim para ser
se poeta não sei
mas é com poesia que tudo faz sentido
desdobrando metáforas pedinte de ideias
ouvindo o vento que sopra sossegado
olhando estrelas comunicando espaços
que os olhos não vêem
mas as palavras sentem
tudo o mais nada vale o verso
se deprimido vazio isolado em vida
entre o nascimento e a morte
deixo o abismo e não vivo o universo
palavras (autênticas)
ideias (falsas)
não quero viver sem as conseqüências
de organizar o espaço e o tempo
e preparar-me para o indesejado fim
dessa verdade que me dói os ossos
que farei se não escrever poesia
Rio de Janeiro, março de 2017
terça-feira, 28 de março de 2017
MENOS UM DIA
bebi a vida
e até hoje me embriago
um sem remédio que se remedeia
a cada dia na seqüência de ser
isolado às vezes
outras agregado como sinfonia
fosse tudo igual seria diferente
onde estou seria sempre o mesmo
todo dia
assim na infância o mesmo na velhice
sem esforço igual
um ao outro
mas não é ou talvez não seja
um momento de ansiedade
uma alegria com a idade
a conclusão antes do fim
ou o início com paralisia
vem a destruição sem construção
vem o calafrio em dia quente
vem o calor em pleno inverno frio
vem a tristeza intercalada ao nada
vai e vem
sem lógica ou exaltação
resta um grito
talvez cansaço
desse período noturno
das forças inelutáveis dos astros
que giram sobre si mesmos
e transladam em torno de um sol
ah...o fim é o foco
do que p'ra mim nem começou
e sou bebido sem contradição
ai
Rio de Janeiro, março de 2017
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