"Porém, pera cantar de vosso gesto a composição alta e milagrosa, aqui falta saber, engenho e arte." Luís de Camões ... assim encontrareis aqui palavras magoadas a tornar o fogo frio e dar descanso a minha alma condenada ...
quinta-feira, 26 de julho de 2018
DÚVIDA
eu nunca sei
se o que escrevo
fui eu que pensei
nem mesmo leio
o que diz a palavra
na lembrança esquecida
não terei de explicar
o que sinto
neste desterro indevido
de sobreviver em mim mesmo
e depois tudo acaba
e quem somos
não seremos mais
estar só é uma percepção
ainda que outros sobrevivam
em torno de ti
tudo foi fátuo
no erro de pensar que eu fui
sem jamais ter sido
o que tanto procurei
para definir o indefinível
de existir
Rio de Janeiro, junho de 2018
sexta-feira, 11 de maio de 2018
HORÓSCOPO
"Antes de nós [...]
passou o vento quando havia vento"
Odes de Ricardo Reis
passa o vento passa o tempo passamos nós
em tempos diferentes
e tudo acontece como hoje
quando homens se apegam ao vão momento
porque somos iguais
porque somos quem somos
homo sapiens
porque nada há dentro de nós
ocos
porque venais
construímos um mundo novo
a cada palmo conquistado à natureza
erguemos monumentos à riqueza
consumimos o planeta
e nos desentendemos
é maio
Urano nos conduz imprevisível
libertador
signo por signo
e nos transporta a novo espaço
desconhecido
aberto e alheio parecendo único
afetando vidas
sem razão perdemos o arbítrio
e navegamos cegos
por mares ermos
e onde estamos
dezoito anos depois do ano zero
em duas vezes o milênio
inscritos neste ponto de nossa eternidade
poucos anos
e ardemos casas e ferimos jovens
e matamos a vã esperança do futuro
para ressaltar a indiferença
de todos nós por todos nós
sombras de sonhos
pensamentos
circunstanciadamente destruídos
entretanto
um novo ciclo se anuncia
de profunda reflexão
de rebeldia
de mudança
de revolução
o novo tempo
a nova era
reequilibrados por influência de Saturno
virá o novo tempo
Rio de Janeiro, maio de 2018
quarta-feira, 9 de maio de 2018
ETERNIDADE
...antes de nós o tempo já fluía
no movimento dos astros
alheios ao mundo em que vivemos
éramos parte
mas não existíamos
Chronos anunciou a vida
ou vice-versa
quando parecemos dominar
a incerteza do planeta
descobrindo o universo
Éter e Caos
homem e ilusão
a contar as ondas que arrebentam em seu mar
e um Deus Netuno ao navegante controlar
assim outros deuses detentores do Poder
de ao tempo falsamente superar
incessante tempo
dominante
Chronos
venta o vento
Éolo compelindo tempestades
um deus mais
outros deuses
homem
lutando contra o tempo
luta inglória
só Aeon domina
somos o ruído que se abafa
só o ruído da vertigem
nada afeta a eternidade
Rio de Janeiro, maio de 2018
terça-feira, 8 de maio de 2018
TEMPO
tudo é tempo
o mesmo nada
em cujo vazio nem a libélula voa
antes de nós
antes de tudo
antes que o vento sopre
penso no tempo
que a cada instante é outro
só não inútil porque logo é tarde
e o dia passa
no rodopiar que se repete do planeta
girando sobre si mesmo
que com razão ou sem razão nos serve
"somos os homens ocos"
cheios de tempo
de ponta a ponta como nos conta a vida
até a morte
não há o que fazer do tempo
ou com o tempo
que inevitável passa
Rio de Janeiro, maio de 2018.
domingo, 11 de fevereiro de 2018
RITUAL DE CARNAVAL (revisto)
ouço a música que toca para dançar
ouço os gemidos da moça que não quer descansar
ouço o rapaz heroico a resfolegar
estão logo ali as sombras que se abraçam
na solidão a dois que buscaram para se amar
há animal no ato selvagem de penetrar
nem tanto a alma que ali não quis ter lugar
ouço o surdo ronco do gozo
e uivos de hiena no calor do ato carnal
ouço os gemidos da moça que não quer descansar
ouço o rapaz heroico a resfolegar
estão logo ali as sombras que se abraçam
na solidão a dois que buscaram para se amar
há animal no ato selvagem de penetrar
nem tanto a alma que ali não quis ter lugar
ouço o surdo ronco do gozo
e uivos de hiena no calor do ato carnal
a noite cheia impele os jovens
a pular desengonçados sua fortaleza
num exercício de desgastar e ficar
para fazer valer um gesto de beleza
a pular desengonçados sua fortaleza
num exercício de desgastar e ficar
para fazer valer um gesto de beleza
a juventude e sua natureza
necessitam essencialmente ali estar
frenéticos como se o mundo fosse acabar
furiosamente dançam a coreografia do inferno
dançam dançam sem parar
na simplicidade de seus corpos quentes
como quem vive o último dia chegar
necessitam essencialmente ali estar
frenéticos como se o mundo fosse acabar
furiosamente dançam a coreografia do inferno
dançam dançam sem parar
na simplicidade de seus corpos quentes
como quem vive o último dia chegar
o tum-tum tum-tum-tum não ameaça terminar
nas sombras da noite que não quer acabar
acalmam-se depois do gozo animal
miram-se quase nus num gesto final
lambem-se as carnes molhadas de transpirar
como a cria que da mãe quer mamar
acalmam-se depois do gozo animal
miram-se quase nus num gesto final
lambem-se as carnes molhadas de transpirar
como a cria que da mãe quer mamar
dão-se a inútil atenção do desdesejo
real frio da morta atração
tudo passado
para correr cada um para seu lugar
e continuar a dançar
real frio da morta atração
tudo passado
para correr cada um para seu lugar
e continuar a dançar
tum-tum tum-tum-tum
Rio de Janeiro, fevereiro de 2017/18
quarta-feira, 3 de janeiro de 2018
INÚTIL TEMPO
ah o futuro
de que vale o tempo
se nada sabemos de amanhã?
Rio de Janeiro, 31 de dezembro de 2017
JOGADOR
pobre e desvestido
na solidão de nenhum carinho
a bola companheira
era vestígio do passado
jogado
em dribles à frente
história
de um menino sem futuro
olhar brilhante
curiosidade
a descobrir pensamentos
ter ideias
alimentar sonhos
corria recuava saltava
em cada bola um craque crescia
um vencedor anunciando gol
um contrato rubronegro
sub quinze
dezessete
titular
era a fortuna
de um olheiro
que o via sempre à frente
coxas firmes
pantorrilha
certeira pontaria de pés descalsos
cheio de areia
e um ralado na perna
de uma agressão descuidada
a chuteira foi o prêmio merecido
no torneio da rua
começo de um crescimento na grama
Flamengo meia
armador de primeira
goleador
do tiro certeiro
encobrindo o goleiro
excitação da vibrante torcida
seleção
é a glória merecida
na ignorância do passado
trabalhador de passes certos
quatro linhas
Rio de Janeiro, dezembro de 2017
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