sábado, 22 de julho de 2017

ONDE ESTAMOS? PARA ONDE VAMOS?


Do caos às causas. Ações aparentemente possíveis.


Salvo acordões meio indecentes, ninguém sabe da futura evolução do quadro político diante do clima de intrigas e contra-intrigas que são publicadas ou apresentadas em Jornais televisivos. Tem-se uma visão dos grupamentos em que se divide a classe política; conhece-se a expectativa da área privada; pouco se sabe, a despeito de pesquisas de alcance e eficácia discutível, das reais tendências e opiniões da sociedade. 
A perplexidade amplia-se diante das ações recentes do Governo, que avança e recua e, ultimamente, vem-se caracterizando por uma preocupação aparentemente dominante de defender o mandado de Temer.O que mais? 
O Congresso continua a sua luta surda para desqualificar o Lava Jato ou talvez congelar seus efeitos, imobilizando novas ações, fora a faina diuturna para obter cargos ou vantagens quando apoiam o Governo Temer. 
Do Supremo Tribunal Federal não temos notícias sempre alvissareiras: alguns Ministros disputam, heterodoxos, espaços nas manchetes e anunciam suas posições e opiniões sobre temas ou casos que deverão julgar. São raríssimos (e respeitáveis) os componentes do STF que se mantêm discretos, judiciosos em suas poucas opiniões. O Supremo foi muito prejudicado por designações excessivamente fundadas nas opiniões e vinculações políticas a grupos políticos. Os governos do PT (Lula e Dilma) puderam nomear número expressivo de Juízes, supondo fidelidades ideológicas. Nesse passo e devido a estranhas conjunções de fatores, o  Supremo perdeu, como órgão superior da Justiça, guardião da Constituição, no respeito dos cidadãos.
Há uma crise de credibilidade no país. 
Não se acredita no papel democrático e republicano das instituições formalmente ungidas como Três Poderes pela Constituição de 88. Desacredita-se mais ainda dos atuais detentores de funções nos três ramos do Poder. Há partidos políticos demais, que não representam visões ideológico-doutrinárias distintas e se confundem em suposta e conjuntural "situação"; em inquieta (o que seria natural) mas irracional "oposição", na maior das vezes confundida por uma liderança oportunista e sem ideologia clara do lulopetismo; e um"centrão"inconfiável, malandro, oportunista e aproveitador. 

Que fazer?

Difícil na atual conjuntura dizer. Em todo caso, arrisco antever algumas etapas, ou talvez tímidos passos, que me parecem obrigatórias para tentarmos progressivamente chegar a um quadro mais lógico e respeitável para atuação política (e parece político, antes de econômica, o traçado de uma rota de recuperação nacional - a economia é central e não se pode fugir do que se vem fazendo para encontrar a estabilidade fiscal, mas em minha elucubração deixo de lado esse hercúleo esforço da equipe econômica, que vai caminhando apesar de todos os pesares).  
Diante do atual quadro congressual, caracterizado pela falta dos grandes condutores com visão de um projeto nacional (exceto poucas exceções), talvez devêssemos começar por três medidas eleitorais para valer já nas eleições de 2018: (1) uma cláusula de barreira, que reduzisse o número de partidos e reagrupasse os atuais em torno de projetos doutrinário-ideológicos para ação coerente futura; (2) como corolário, a proibição de coligações com consequências eleitorais e (3) a adoção de um sistema eleitoral distrital-misto, isto é, um voto ideológico nos partidos e um voto distrital , aproximando o eleito das causas e temáticas de sua origem.
Realizada a eleição em 2018 sob essa nova configuração, talvez pudéssemos  reiniciar a legislatura com maior coerência intrínseca, trabalhando com um novo Presidente que se elegeria na mesma ocasião.
O novo Presidente já é uma nova história, eleito para representar o país, como Chefe de Estado, e organizar a execução do orçamento segundo um projeto nacional e conduzir, como o executivo maior, a economia. 
Seria preciso falar da Constituição pesada de 1988, que é duplamente excessiva nos detalhes impróprios para uma Carta Magna ou na sobrecarga que atribui ao Estado, sem considerar que o peso excessivo de responsabilidades sociais, que lhe atribui diretamente, tendem a asfixiá-lo por falta de meios administrativos e rendas. De 2018 em diante seria necessário trabalhar nisso.  
Não vejo entretanto ainda um projeto nacional esboçado com clareza por nenhum dos partidos e "repartidos"que se esbarram nos corredores do Poder: 
Sendo esquemático, quem é liberal na condução da economia? quem é liberal politicamente? que liberalismos estariam representados > o liberalismo social ou ou liberalismo nos costumes e procedimentos individuais? quem é social-democrata? o social democrata do Estado omnipresente ou ou que adota uma concepção mista de um Estado regulador, pouco intervencionista, capaz de gerar redes de segurança social e liberar a iniciativa privada como sócia nessa tarefa? quem é socialista, marxista ou fabiano, ou gramsciano? quem é ambientalista "à outrance" ou defensor de um desenvolvimento sustentável? e assim por diante... 
A resultante seria a condução da economia, que em nenhum caso pode dispensar o equilíbrio fiscal. O erário é constituído pela arredação de impostos, que são retirados da contribuição das pessoas, físicas ou jurídicas. É o guardião do Orçamento, de que a execução segue as linhas do projeto nacional, como interpretado pelo Presidente e permitido pelas Leis, onde entra o Congresso Nacional. Nada além disso pode ser suposto, exceto quando inclui rendas financeiras, o que já é outra história, mas também dependente do desenho do projeto nacional.  
Esse é meu inútil dever, escrever e pensar, pois tudo deverá ser suposto no correr do tempo futuro onde pouco estarei depois de sobreviver ao caos que se parece instalar neste país por ora infeliz. 

Rio de Janeiro, 22 de julho de 2017

quinta-feira, 6 de julho de 2017

IMPROMPTUS




um som
impromptus de Shubert

[https://www.youtube.com/watch?v=j1rCDLGcVhs]

de onde surgem não vejo
teclas que se encadeiam
descendentes ascendentes
suspiros
medindo tempos
entre o grave e o suave
vêm e me consolam
da aridez de tudo
da insensatez 
com a lógica de acordes 
lindos por sublimes 
onde o talvez não surpreende
e faz de mim teu 

suavemente dentro de mim
se entrelaçam notas
e magicamente me encantam
talvez sonhando
um amor sem fim

Rio de Janeiro, julho de 2017

SAUDADE III




tempo é circunstancia
o espaço distancia
a saudade é sombra tardia da verdade
realidade que tangencia a imaginação

não se conjugam espaço e tempo

idólatra do passado
a saudade é só presente
não há futuro múltiplo de si mesma

Rio, 06 de julho de 2014/06 de julho de 2017

FANTASIA?




a fantasia é a cena
não entendo o enredo
creio na indignação
de platéia contra vilões

dói o turbilhão de fatos
nesse deserto
onde não nascem rosas
nem sobrevivem lagartos

ratifico a ética
vagueio entre sonhos
que percorrem a alma
numa história do futuro
recomponho pecados cometidos
reúno forças 
o passado serão inexpressivas pedras

Rio de Janeiro, julho de 2017 

domingo, 18 de junho de 2017

CÃO DE LATA AO RABO


                                                                               Minha primeira aventura na poesia, 
publicada   em "A Comarca",  
de Araçatuba (em 1956), 
tinha eu 15 anos. Enxertei 
um texto (2017) do que resultou 
essa combinação explicativa. 


não contarei minha história
mas era um cão com lata ao rabo
a ganir

o que vem

depois pode ser um poema
ou não
mas desse começo guardo o grito
contra a lata no rabo do cão
que não é fato usual
nem natural

 será um poema
não sei
(2017)
*** 


Escrever? Nem pensei,
mas senti.
Será deixar o cão arrastar a lata
e ganir?
Alguém amarrou a lata
e o cão em desespero correu
e cá estou a ganir .
É um eco a imagem
que estilhaça o marfim
janelas caladas
cortinas fechadas
nem um relance de olhar"
(1956)

Araçatuba,1956; Rio, 2017

sábado, 17 de junho de 2017

RUÍNAS


cantei o amor cantei vida
cantei tristeza e alegria
cantei o vento e a brisa
cantei tédio e calmaria

cantei o que não tem causa
cantei o jovem e o velho
cantei mágoa
cantei o passar rápido do rio

o tempo passa a hora dói
ir e voltar e nada encontrar
tudo é vácuo e vazio
ao parar no meio do caminho

não conheço o que sei
nada sei
meu castelo ruiu
no sonho bom que sonhei

tempo estranho sem estrelas no céu
nuvens raras tempestades
um turbilhão só de meu
em meio a um jogo de azar

já não canto
choro
a história se desfez
mas desejo ignorar

escadas sempre descendo
sou ateu

subir graus de ironia
é o que tenho de meu

Rio de Janeiro, junho de 2017

sexta-feira, 16 de junho de 2017

HESITAÇÃO




a eterna busca do porto
linha final 
tudo concertado
para um navegar preciso

nada disso é possível
no esticar longo da vida
onde o que não se pensa
não sei donde vem
impreciso
feliz
dolorido
reenviando ao fim

a vida flui e reflui
não cria modelos
não define regras
nem é só exterior
bem não é interior 
acontece
irreprimível
diurna e noturna
pode ir e voltar
não tem meio de caminho
nem fim
tudo é começo

Rio de Janeiro, junho de 2017