quarta-feira, 10 de julho de 2019

ESPERANÇA




não me consome o tempo
mas avisa por vezes que existe
e imperceptível o instante
passa

não reconheço o fim
que tudo estranho não comove
sei que não tarda
e assim fico nesta grade estreita
a aguardar a hora

esvai-se a segurança com o vento
socorre-me a esperança
incansável sentimento
que ultrapassa o automático momento

Rio de Janeiro, julho de 2019.


sábado, 22 de junho de 2019

DIVAGAÇÃO




nem sei porque deixei de cantar os sonhos

erro?
desencanto?
não 
não é esse o caminho

o contínuo do tempo não mudou
nem rompeu a madrugada um sol sem luz
no mar indecifrável sempre o horizonte impera
no céu de azul intenso velejam nuvens 
derramam-se na areia as ondas sossegadas
e as flores vicejam coloridas na encosta sempre verde  

o destino é o mesmo
e o amor não ignora que vivemos

sucumbi ao tempo que implacável passa

talvez
como o sol que anuncia o dia e acaba em noite
alheio ao fado
invencível na rotação que nos varia a hora 

ontem já se foi
o amanhã ainda não existe
e hoje me confesso 

ignoro por que perdi o verso
e já não canto como outrora
apenas vivo 
enquanto o tempo me conduz à indesejável hora

Rio de Janeiro, junho de 2019.




sábado, 30 de março de 2019

NADA



tenho saudades de tudo
"que inda que mágoa
é vida"

tudo passou
pouco ficou 
apenas passou

aquilo que foi
ou o que poderia ter sido
não foi
o que será

nada posso
do que deverá ser 
mas tenho saudade
do que possa ser

saudade por acontecer

tempo 
lembrança do que restou
por viver

o dia
o momento
diz o Poeta "domina ou cala" 

tudo é nada


[entre aspas, Pessoa]

Rio de Janeiro, março de 2019

domingo, 17 de fevereiro de 2019

PENSANDO NA VIDA



Mariana hoje
Lucas logo depois 


Canto a vida porque me deu tudo
um filho uma filha
quatro netos incríveis
não preciso recordar
vivo dessa união
que não dispensa a mãe
peça central
nada me nega
nem mesmo o que não peço
e vou navegando
nesse rio do tempo
antes de chegar ao mar
nesse barco nunca à deriva
fevereiro é festa
do 17 hoje ao 29
que será primeiro de março
comemoro minha filha e meu neto
para mim eternas praias
onde descanso no amor
esse sentimento imperecível de vida

Rio de Janeiro, 17 de fevereiro de 2019

domingo, 10 de fevereiro de 2019

FLAMENGO


meninos

palavras escondem o que dizem
revelam o que pensamos
mas que nem sempre sentimos

cada passo é diferente
magia do ir e vir
por isso vale a pena gritar
palavra que não quero ouvir
ouço-a muito bem
mas esqueço de sentir
quando vai
menos de quando vem

na liberdade o poeta
o sol canta bem cedo
e acaba à tarde em noite
para a palavra não basta virar a página
difícil será esquecê-la

o sol desponta cada manhã

assim a tristeza hoje
disfarça a buliçosa alegria
dos que pouco atrás
ante-ontem
presentes ainda nos deram

Rio de Janeiro, fevereiro de 2019.

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

UM PENSAMENTO




em torno de mim passam lembranças
memórias esquecidas
entretanto vivas neste poder que é meu
de recusar o desterro

não 

não tenho medo do destino
que é meu fado tecido
por coisas e fatos repetidos no tempo 
cujo tempo parece perto de esvair-se a si mesmo

por isso reina a paz dos momentos vencidos

na "confusa solidão da vida"
em que nunca fui só
entre os meus e os que se juntaram igualmente meus

é delicada a lembrança desses dias

que murmuram sob a brisa do eterno futuro sabido

nada antecipo nem sombra nem luz

que a cada um resta o desígnio
de imitar-se no abismo

escrevo para me encantar com a vida

em versos que ficam
na recusa ao culto de um futuro
que não me pertence

Rio, dezembro de 2018



sábado, 1 de dezembro de 2018

REFLEXÕES EM CAMPO ABERTO

... é possível definir poesia? 


[Flávio Perri] - original no FaceBook 
em VIDRÁGUAS
 




Abrir caminhos derrubar trincheiras liberar. Reconheço a arquitetura deste espaço de aventuras a desvendar segredos de tantos egos desconhecidos em palavras que lhes dizem à alma. Creio na aurora de muitos sóis, acredito na liberdade de dizer mesmo que às custas de não ser compreendido, sei que a criação existe no mito da sensibilidade e a música, sem palavras, dá-nos o tom e a melodia que é puro ouvido...do espírito. Assim é a poesia de todas as paixões ao não dizer tudo e insinuar muito, a música que ouvimos também se escreve no ritmo interno das idéias e sensações. Aconselhava o poeta em frase clássica "deixe crescer a semente que Deus plantou na tua alma/ e tua posteridade tranquila se multiplicará/ na proporção das areias do mar e das estrelas do céu". Por vezes, sentado à beira de um verso medito para descobrir o que me induziu a escrevê-lo e não descubro senão que não fui eu que o escrevi, mas minhas mãos guiadas por desígnio ignoto a vir de não sei onde para alcançar não sei o que, mas sinto a música formal ou virtual no que as mãos souberam dedilhar. Não há princípio [por isso meus versos jamais começam com letras maiúsculas] nem nada se termina [por isso não há pontos finais] e as palavras jogam livres ao sabor da força que as atrai antes o depois de escritas [e isso é uma tarefa do leitor]. Caos, diriam os puristas gramaticais, ignorância das regras, pensariam os exegetas escravizados pela forma lexical. Assim entendo o pouco que pensei no muito que há a pensar e, em meu degredo, envolto em nuvens, descobri o valor de escrever [o que sinto? Não sei] sob o comando apenas da percepção, que é um momento. Alguns buscam autobiografia, outros sentimentos, mais além descobrem pensamentos, mas nada disso há, são palavras lançadas ao vento do alto de um navio que navega um céu aberto e encontram o leitor em praia onde se derramam domadas em seu eterno vai-e-vem. Palavras vão palavras vêm palavras ficam gravadas pelo valor que têm na vivência do leitor. Serão sempre poucos mas serão amantes a quem beijo a boca com minha frase em longínqua poesia: "poesia é como o beijo tudo que dos lábios se deseja".

Flávio Miragaia Perri, maio de 2011.