domingo, 1 de novembro de 2009

MELODIA DE OUTONO





essa música que chamei poesia
tão suave no fim do dia
é o que me resta desse longo vôo

na distante verdade do passado
sou grato de haver sido poupado
de momentos de melancolia

deixo três ou quatro sílabas
alinhadas em palavras
colhidas como folhas caídas
nesse outono quase findo

entre o sonho e o sono
sobrevôo o sensível
do que ainda são folhas
apenas orvalhadas

há uma estranha alegria
em sabê-las úmidas
tomem-nas como ousadia
não as queria perder
são a minha poesia

Rio, novembro de 2009




domingo, 25 de outubro de 2009

MICKEY MOUSE








...do que vive o poema?
dos sonhos responderei
do sonho que há no sonho
do que não vejo
quintessência do que não sei

sonho tudo que sou
o que fui
o que não fui
sonho o que não posso esquecer

o poema como o sonho
inebria como jasmim


[hoje o sonho brilhou nos olhos de minha neta
três anos
sonhando seu mundo feliz]


Disney [Fl], outubro de 2009




quarta-feira, 16 de setembro de 2009

CANTO DA PARTIDA








...ai daqueles que chegado já não chega
diz Cecília da sombra do que é
algum fantasma sem projeto
que da noite escura inda insepulto
faz de todo instante
razão de esquecimento
...ai daquele que em longínquas cenas
desconhece o homem que já foi
para entregar-se decidido
ao real e impossível
sintoma e desejo nessa ordem
de que é sombra
de vislumbrar apenas paz
...ai daquele tão sereno ser
que da vida fez memória
e conscientemente se divide
entre existir e já não ser
...ai daquele feliz no seu presente
que passa seu compasso
e traça o círculo onde se cala
como fonte que encerrasse
o fluxo d'água doce em que viveu
...ai daquele
não será compreendido nem amado
e partirá sozinho com seu fado

Rio de Janeiro, setembro de 2009




segunda-feira, 14 de setembro de 2009

SEM IDÉIA







[exercício sobre um tema camoniano]



se amador e cousa amada
um em outro se transformam
seremos um sem jamais nos separar

lembrada repetida sentida arrebatada
a cousa amada
nada mais pretende transformar
e nos meus beijos toma forma
em pensamento como idéia
alma em alma se conforma

Rio de Janeiro, setembro de 2009





domingo, 13 de setembro de 2009

MIYUKO HATOYAMA






há sóis como o poema
prismas na projeção do infinito

há sóis onde a alegria se aquece
como amor em dois minutos
[e nunca é muito]

há sóis que o calor não conhecem
sóis circulares
que o silêncio emudecem

sóis há
sóis para secar a roupa em varais
em tão distantes quintais

sóis da velhice sóis da infância
sóis infinitezimais
sóis da alegria e do amor
sóis do silêncio
sóis que sempre foram sal
sal do alimento



Rio de Janeiro, setembro de 2009.





sábado, 12 de setembro de 2009

[em construção]













editar é amar sem querer
os poemas postados hoje
em livro que não lerei
corto aqui troco palavras
crio recrio
odeio o que há por fazer


metáforas metástases
paráfrases metonímias
meto-me a frasear
metalinguagem
no drama de me acabar



moleque de recados
ouço palpites de todos
traidores como o diabo
corto aqui corto acolá
resta pouco do que senti


nem sei se sou poeta
nem ser poeta sei o que é
sou só eu mesmo e não outro
que escreve aqui como lá



sábado, 5 de setembro de 2009

MEL








que pena não ser Bandeira
para cantar a bebedeira
com a graça matreira
de um menestrel

na minha idade
falar futilidade
voltar à puberdade
não será fiel

e minh' alma lavada
nem será notada
por essa gente malvada
de bordel

melhor ser conservador
pensar no amor
e deitar minha dor
em potes de mel


Rio de Janeiro, 5 de setembro de 2009