"Porém, pera cantar de vosso gesto a composição alta e milagrosa, aqui falta saber, engenho e arte." Luís de Camões ... assim encontrareis aqui palavras magoadas a tornar o fogo frio e dar descanso a minha alma condenada ...
domingo, 26 de janeiro de 2014
CERTO ERRADO
se o errado é diverso do certo
se o erro é diverso
se o certo é um
errar é majoritário
quem me dera (assim) errar para ser feliz
quem me dera ser feliz em errar
quem me dera nada dever
a teimar amar odiar concordar
eu desejaria que tudo acontecesse novamente
"da capo al fine"
e eu teimaria para não concordar
eu amaria sentir-me bem a odiar
eu odiaria teimar (muitas vezes)
e concordaria em amar (muitas vezes)
faria tudo assim combinado
o contrário do certo
o contrário do erro
e seria mais eu
feliz
Rio, janeiro de 2014.
sábado, 25 de janeiro de 2014
SER PEDRA
estava eu descuidado como uma pedra
alheado
seco árido e uma fonte ao lado
murmurava
é uma emoção estranha
externa
é como
diante do espelho frio
a imagem
que nada sente
nem como bem nem como mal
a pedra está lá
quieta
nunca se moverá
a imagem no espelho
alguém será
mas alheada e árida
(tanto quanto a pedra)
fonte e ser (da imagem o espelho)
pedra e espelho
todos têm razão
parte da emoção é a vida
mas a imagem não sente o ser que reflete
não vive
sei que a pedra ficará
e o ser do espelho voará
para um lugar
onde nenhuma asa o levará
Rio, janeiro de 2014
CHUVA
a chuva encharca as ruas
inunda as baixas
corre a água em direção ao mar
venta
o sol há muito se foi sob nuvens
que encobriram à noite o luar
é torrencial
o mar assusta a gente erguendo ondas descomunais
"de iras e de ais"
chuva nos trópicos
tópicos de todos os jornais
onde tudo começa
onde tudo termina
no lapso suspenso do tempo
onde
mas que importa se tudo volta ao normal
como sol e a lua em céus de diferentes azuis
nem mais vento
brisa
assim meu pensamento
Rio, janeiro de 2014.
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
BRISAS
a brisa da bruma é diferente da brisa do sol
passam as duas pelos jardins e colhem perfumes
mas não dizem ao trazê-los se me entristecerão ou alegrarão
continuam em seu caminho em direção aos céus
e outros jardins rosas ou jasmins
e em mim fica a bruma ou o sol
trazidos pelos perfumes
Rio, janeiro de 2014
UMA PEDRA
`
uma pedra atravessou o meu caminho
uma pedra é uma pedra
mas essa movia-se
pisei-a
caía a tarde quase noite nessa trilha
era uma tarde chuvosa
úmidas eram as passadas
úmido meu coração
pingos d'água antecipavam um dialogo
com as pedras e havia vento em torno de mim
solitários eu e a pedra
há tempo imóvel sob meus pés
indagativo soltei-a e ela saltou
acelerou o ritmo
rolava entre outras pedras
aparentemente em busca da chuva
era a água que precisava
para rolar
rolava por causa da água
ou rolava atrás da chuva
indaguei
e o vento continuava a soprar em torno de mim
como seguindo a pedra
ou era a pedra que esperava o vento
chuva
água
pedra
vento
que chuva é essa
que pedra
que vento
que água
quando acordei
[sonhava]
a chuva, o vento e a água giravam em torno de mim
e dialogavam
a pedra imóvel secava-se ao sol
despertará?
Rio, janeiro de 3014.
uma pedra atravessou o meu caminho
uma pedra é uma pedra
mas essa movia-se
pisei-a
caía a tarde quase noite nessa trilha
era uma tarde chuvosa
úmidas eram as passadas
úmido meu coração
pingos d'água antecipavam um dialogo
com as pedras e havia vento em torno de mim
solitários eu e a pedra
há tempo imóvel sob meus pés
indagativo soltei-a e ela saltou
acelerou o ritmo
rolava entre outras pedras
aparentemente em busca da chuva
era a água que precisava
para rolar
rolava por causa da água
ou rolava atrás da chuva
indaguei
e o vento continuava a soprar em torno de mim
como seguindo a pedra
ou era a pedra que esperava o vento
chuva
água
pedra
vento
que chuva é essa
que pedra
que vento
que água
quando acordei
[sonhava]
a chuva, o vento e a água giravam em torno de mim
e dialogavam
a pedra imóvel secava-se ao sol
despertará?
Rio, janeiro de 3014.
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
UMA FÁBULA
em algum momento passado
abri uma caixa de surpresas
a umidade de um mangue
não prometia razões
exceto um ser cuja origem não parecia ser dali
e parecia trazer novidade
na pobreza alarmante do lugar
não me detive era dezembro e fazia calor
mas a imagem ficou do ser
que ainda nem era
dissimulado no meio de folhagem e do barro
das ruas e casario pobres
mas a surpresa que havia na caixa
era a maçã de Adão
ainda verde
rústica na aparência
folhas verdes empoeiradas
areia e água
fui-me e voltei
uma fruta como a maçã não é só forma
é polpa e sabor
colhi-a na dúvida essencial
e tratei-a ainda a duvidar
era irreprimível
era irredenta
o tempo que é maestro trouxe a transformação
ventos bem vindos sopraram conteúdo
e a maçã verde amadureceu
presenciei tudo isso por vezes perplexo
outras ressentido
porque não desvendara o segredo
da caixa e do que fosse a maçã
o tempo a sorte a bonaventura ajudaram-me a entender
e da linha que me havia traçado
apoiado por bons deuses
esculpi parte da maçã que era doce
de verde a madura rósea e vermelha a fruta eclodiu
seu sabor sua beleza sua vida
não há razões de desatenção
para caixinhas de surpresa
mesmo que descoberta no mangue
não há desprezo possível
a maçã é maçã onde quer que se a encontre
nenhuma surpresa
que se lhe dê tempo e o polimento final e lá estará a mesma fruta de outras
seu sabor sua beleza sua vida
Rio, janeiro de 2014.
O MAR E EU
há tantas vidas no mar
não apenas ondas vagas
talvez aí se encontre o início de tudo
talvez de lá venha o fim
interminável parece a superfície do mar
vejo-o todo dia é meu refúgio
vem com suas ondas marulhar à beira da praia
ouço-as atentamente
trazem mensagens que me alimentam o dia pela manhã
deixam ideias que povoam meus sonhos à noite
e tudo cria ou destrói
não há só ondas no mar
Rio, janeiro de 2014.
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