quinta-feira, 6 de julho de 2017

SAUDADE III




tempo é circunstancia
o espaço distancia
a saudade é sombra tardia da verdade
realidade que tangencia a imaginação

não se conjugam espaço e tempo

idólatra do passado
a saudade é só presente
não há futuro múltiplo de si mesma

Rio, 06 de julho de 2014/06 de julho de 2017

FANTASIA?




a fantasia é a cena
não entendo o enredo
creio na indignação
de platéia contra vilões

dói o turbilhão de fatos
nesse deserto
onde não nascem rosas
nem sobrevivem lagartos

ratifico a ética
vagueio entre sonhos
que percorrem a alma
numa história do futuro
recomponho pecados cometidos
reúno forças 
o passado serão inexpressivas pedras

Rio de Janeiro, julho de 2017 

domingo, 18 de junho de 2017

CÃO DE LATA AO RABO


                                                                               Minha primeira aventura na poesia, 
publicada   em "A Comarca",  
de Araçatuba (em 1956), 
tinha eu 15 anos. Enxertei 
um texto (2017) do que resultou 
essa combinação explicativa. 


não contarei minha história
mas era um cão com lata ao rabo
a ganir

o que vem

depois pode ser um poema
ou não
mas desse começo guardo o grito
contra a lata no rabo do cão
que não é fato usual
nem natural

 será um poema
não sei
(2017)
*** 


Escrever? Nem pensei,
mas senti.
Será deixar o cão arrastar a lata
e ganir?
Alguém amarrou a lata
e o cão em desespero correu
e cá estou a ganir .
É um eco a imagem
que estilhaça o marfim
janelas caladas
cortinas fechadas
nem um relance de olhar"
(1956)

Araçatuba,1956; Rio, 2017

sábado, 17 de junho de 2017

RUÍNAS


cantei o amor cantei vida
cantei tristeza e alegria
cantei o vento e a brisa
cantei tédio e calmaria

cantei o que não tem causa
cantei o jovem e o velho
cantei mágoa
cantei o passar rápido do rio

o tempo passa a hora dói
ir e voltar e nada encontrar
tudo é vácuo e vazio
ao parar no meio do caminho

não conheço o que sei
nada sei
meu castelo ruiu
no sonho bom que sonhei

tempo estranho sem estrelas no céu
nuvens raras tempestades
um turbilhão só de meu
em meio a um jogo de azar

já não canto
choro
a história se desfez
mas desejo ignorar

escadas sempre descendo
sou ateu

subir graus de ironia
é o que tenho de meu

Rio de Janeiro, junho de 2017

sexta-feira, 16 de junho de 2017

HESITAÇÃO




a eterna busca do porto
linha final 
tudo concertado
para um navegar preciso

nada disso é possível
no esticar longo da vida
onde o que não se pensa
não sei donde vem
impreciso
feliz
dolorido
reenviando ao fim

a vida flui e reflui
não cria modelos
não define regras
nem é só exterior
bem não é interior 
acontece
irreprimível
diurna e noturna
pode ir e voltar
não tem meio de caminho
nem fim
tudo é começo

Rio de Janeiro, junho de 2017

terça-feira, 25 de abril de 2017

ENTENDER? QUEM HÁ DE?




o que emociona ainda não apareceu
a Terra continua redonda e o horizonte
(nítido ou não)
tudo é normal
frio seca chuva calor
até a fidelidade no amor
assim somos nós

Netuno governa os mares
Apolo faz musculação

hoje a novidade é ladrão
diurno e noturno (como a Terra em seu jogo com o sol)
o corruptor cheio de verdades
dá entrevistas amenas
na televisão
ou difunde boatos no rabigalo da corrupção

do noticiário convulso
restam folhas de jornal
inexplosivos como pastéis
o país não tem futuro com a tal Constituição
(que me perdoe o inesquecível Ulisses dos Guimarães)
pouco cidadã
a lei não individualiza a pena
e generaliza a salvação
erga omnes

a Constituição inaplicável
engessa o país
com seus intermináveis incisos
inumeráveis
de pouco juízo
ou nenhum
resta o parágrafo da proibição da cachaça
essa mesma que nos atrapalha
e não faz sentido nenhum
mas esse é o nome do jogo

olho a chamada realidade
olhos de não ver nada
no vértice cúmplices associados
na base nenhuma direção
não há luz só confins
perplexidade sem fim



Rio de Janeiro, abril de 2017

quinta-feira, 20 de abril de 2017

OUVIR ESTRELAS!



na madrugada escura
não me recordo de nada
sinto apenas em silêncio
o passar das horas
às vezes anjos me assaltam
com a ideia da morte
o que é apenas natural
nesta idade que tenho

sou um soldado da vida
disciplinado e treinado
espero o clarim
para saber que estou acabado
serei feliz se o som demorar
ainda tenho desejos
em meio a muitas vontades
quase livre do cansaço
de ter vivido o tempo
sem jaça mas sem brilho nenhum

nessas horas estou só
ninguém me sabe
nem sente as radiações de vida
que emito entre suspiros
profundos como a memória
já miragens de um coração
feito "clip"de anjos

não creio ter errado nas sendas que percorri
errei solitário
entre altos e baixos nas trilhas de meu passado

medito na madrugada já clara
e aceito o despertar do dia
como etapa da experiência
que goteja hora após hora
mas só no escuro vejo
o que me é suprimido de dia 

são estrelas em constelação que a noite oferece
que no sol e no claro apenas desaparecem 


Rio de Janeiro, abril de 2017