segunda-feira, 18 de abril de 2011

ESPERA






de quem não sei herdei
forma irrealizável de esperança
de esperar o que não vem
esperar o que não posso ter
esperar esperar
e frustrar

será sofrer essa forma de viver
fora do tempo amando a juventude
ausente a amar o amor
presente que nunca terei?

tais nuvens no céu moventes
navego esperanças
de que não tenho a verdade
em minha dura realidade

na areia branca em que o mar se espraia
espero a próxima onda
descabelada na eterna ilusão
de outras que virão


Rio, abril de 2011




domingo, 17 de abril de 2011

TEMPOS







pudera ser eu mais que humano
como se vivesse além do tempo
o desejo de todos os abraços

que mais senão o brilho da estrela
da alvorada já tão distante
como o olhar que nem mais tenho

a juventude não fosse tão estreita
estenderia meus gestos além do tempo
e hoje não me veria no amor engano

oh tempo oh costumes
que mais dissera eu para prová-los falsos
senão fechar este poema sêco

Rio, abril de 2011.







sábado, 16 de abril de 2011

CRISTAL







o poema revela a intimidade
de espelhos de cristal
em luzes divergentes
concentradas
aparentes

nua cada frase expõe a claridade
sem a evidência
que ao leitor pertence

diamante facetado entre flores
brilhos e cores
da luz que oblíqua dança
o amor que esconde

assim sou eu da minha infância
talvez na poeira reincidente
de tempos azuis de um pálido intenso

danço o mesmo amor
em outros tons
nos reflexos do tempo que se foi

cristal indecifrável no invisível que aparece
vívido sobre areia em pó
da ruptura
em meu último momento

estou ainda
no fim serei o que restou
da vida generosa
deixo o que sinto
para outros
que me acompanham
os que amei ou a quem amo
na riqueza [di]lapidada
desta minha vida já sem tempo

Rio, abril de 2011.





sexta-feira, 15 de abril de 2011

MEUS MUNDOS





"ser ou não ser"
[será a questão?]


sou cidadão dos mundos que criei
tantos que nem as contas fiz
dos sentimentos que guardei
em todos os pecados que cometi
nem sei
se as paixões foram reais
nos sonhos loucos que sonhei
as memórias do passado
hoje abstração
do que suponho que vivi
tão irreais
no exercício extenuante
de repassar os tempos bons
para ignorar os maus
e sobreviver
fútil pensar na tangente do real
para escapar no espaço sem fim
da fantasia
no desconsolo final
passagem do que sou para o não ser


Rio, abril de 2011





segunda-feira, 11 de abril de 2011

CANTO






escrevo para afastar a sombra
buscando o sol que me aquece a alma
uma palavra a completar a frase
do verso solto que me acaba em sono

quase nada me impede de viver a vida
nem mesmo a indesejada que a suprimirá
nem a palavra desencontrada
nem desamor
nem nada

ouço falarem de fazer poesia
escolha entre palavra e som
consoante em busca de vogais
música que minha alma entôa
no escuro procurando luz

deixe-me que fale de meu silêncio
sobre o que está ausente
na luta diária de me fazer presente
alguma coisa canto
e em teus olhos um sorriso basta
para a alegria de fazer-me o encanto

Rio, abril de 2011




sábado, 9 de abril de 2011

I'M YOURS






aqui tudo é sonho
e és ave sombreando o sol
em pleno vôo desvendando a lua
livre como te quero
em tua busca do futuro

estou feliz enquanto brilha o sol
sobre meus olhos
testemunhas cristalinas
prometendo vida

não estás só
sopra solidário o vento benfazejo
que transforma em luz a escuridão
do início de teus tempos

tens quem zele pelo teu sorriso
translúcido como o primeiro orvalho
tens contigo a pedra
e teu amigo


Rio, abril de 2011.




sexta-feira, 8 de abril de 2011

SONHO





às noites soa o vento
sibilantes sinais de solidão
e o escuro inocente da saudade
esconde-se sob a pedra
do sono sombra em ondas
do eterno marulhar
em que me vens e te vais

Rio, abril de 2011.