colhendo ventos passei parte da vida
não vieram tempestades
mas nada guardei do que colhi
e pior
escaparam pelos fundos
a zunir
comprei um cesto para água
busquei água pura da fonte
cuidadosamente
mas o cesto permaneceu vazio
criteriosamente
assim ao aproximar-se o fim
deixo em testamento
um saco de colher vento e um cesto
com a condição
de que meus herdeiros
lembrem-se de mim
Rio, maio de 2012.
fui ler Drummond e aprendi que gula rima com medula
espinhal óssea supra-renal
mas não entendi onde entra a gula
talvez como excessiva fome essencial
ou será o gosto especial com iguarias
na dúvida voltei a formas livres
de poetar em versos sem rimar
esgrimindo palavras
entre conceitos sabidamente líricos
como dor e amor
tristeza e beleza
ideias e prosopopeias
mas ironia
de repente percebi que rimava
[aqui atrás]
repus a máscara
sério sorri
Rio, maio de 2012.
perplexo não digo qualquer palavra
digo entretanto uma palavra qualquer
que me sai dos lábios
e se escreve em letras
surpreendendo-me na liberdade
que não tenho livre
qualquer palavra não me desperta
uma palavra qualquer instiga-me
porque foi dita
e foi escrita
como numa fuga sem toccata antes
essa palavra é ilusória
parece que me pertence
mas está no ar
não a leiam sem compromisso
que elas comprometem
muito menos quem a disse
do que o leitor que a recebeu
entendam-na se puderem
o que não posso eu
Rio, maio de 2012.
muitas vezes dobrado no finito
não me dobrarei no infinito
um são meses dias horas
outro minha natureza
essa é minha razão
nenhuma desilusão
assim fui
e contudo sou o que me tornei
a caminho de onde não sei
entendo que não terminarei
Rio, maio de 2012.
ao teu lado estremecia
porque sentia
que nada tivesse para te dar
era verdade
mas não o que queria
e me castigava
a distância nunca foi estar longe
mas ausente
ainda assim te amava
Rio, maio de 2012.
...ama que também te amo
sonha que sonharei...
Rio, maio de 2012.
poeta é muito chato
só pensa que escrever poesia
extensa inútil passageira
enche a vida
mas não enche não
Rio, maio de 2012.