sábado, 10 de maio de 2008

BACHIANAS



é domingo novamente
as Bachianas soam como pensamentos
soltos na liberdade matemática
de pensar
o frio que evapora
perfumes
à brisa progressivamente quente
notas no seu ir e vir e vindas
vem a primavera sem demora
na paz do som achado em sol
o fá surdo e solene
da saudade
em notas altas
forma precisa
emoção indecisa
tocadas ao ritmo da vida

Roma/Londres, janeiro/maio de 2003/2008.

LEMBRANÇA


foram-se distraídas
abertas par a par
quentes ilusões frias lembranças
a me deixar sem recordar

breve tempo curto sonho sustenido
breves e vividos
longo sentidos
sempre sofridos



Roma, outubro de 2003.

INVERNO



estrada sob neblina a ofuscar meus olhos
rumo à procura da última trilha
que me leve ao mar


Londres, fevereiro de 2008

MANHÃ



ondas derramam espumas
sobre areias perplexas com a intimidade do mar

o movimento desperta a sensualidade
atravessada pelo sol no limiar da manhã
irreversível


Londres, saudade do Rio em pleno inverno 2008

sexta-feira, 9 de maio de 2008

...


...

polidez enviesada

indireta à úmida janela
onde o desejo não se revela
fascinante não fosse sombra
pedra lisa
em meio ao oceano


Londres, fevereiro de 2008.

PEDRA



é difícil a ilusão
do alto do penhasco

pedra abaixo
olhos fechados

feridos pelo tempo

amigos preparam essa caída
mergulhados na areia quase líquida


Londres, fevereiro de 2008.

NÓS [de laços e nós]


nos laços a vida enlaça e tece nós
górdios
impossível desatar
laços que desatam foram nós também
que amarraram e nos perderam
eram só nós
sem circunstância
acidentais

quando os olhos são brancos
se não podem ouvir o pranto
o nó sufoca o grito
na garganta o nó é cego
não é górdio o cego

gente que vai
seiva que esvai
passam
não se cruzam jamais
não somos nós que nos queremos
sombra que não vemos
nossas mãos entrelaçam-se
por isso temos nós os dedos
sempre nós
mão na mão
juntas como nós
nos aceitamos.

Roma, 19 de abril de 2002