sábado, 14 de novembro de 2009

MANHÃ DE SOL





encosta teu ouvido aqui nesta janela
e ouça o mar

deixa-te estar
sem nada perguntar

nada penses

ouves as ondas ?
ouves seu derramar macio na areia branca?
soam suaves o sussurar da brisa
em pele molhada


escuto o mar
e me sugere o vento

arroxeado o céu clareia
logo é puro azul

a manhã em fogo do verão
respira espaço
e ganha corpos torneados
sensual
em Ipanema

*


a paz tem esse sossego
dos pequenos rumores da manhã
acelerada nos passos dos rapazes
em corridas matinais

o sol não tarda e queima
peles em cor de mel
e o Rio acorda
para o gozo do prazer

Rio, novembro de 2009





ILUSÃO









no caminho recusei desvios
fugi de vários destinos
vários fados disfarcei

entre mim e o tempo há um descompasso
ele passou adiante de mim

enganei-o não sou eu mais que estou
sou o outro que o enganou

o meu passado voltou
e no presente ficou

da ilusão e da esperança vivo
alimentando o desejo
de não deixar prevalecer o destino


Rio, novembro de 2009









sexta-feira, 13 de novembro de 2009

POEMETOS EM PEDAÇOS







I

o barco navega silenciosamente
a sua vela
e se encaminha rotineiramente
ao velho porto

II

a alma silenciosa
flutua sobranceira
e o abismo prenuncia

III

vagas ondas mansas vagam
e o mar suave se espraia
grisalho sobre a areia

IV

ao sol de verão
febril
a branca areia ferve

V

ecôa o sombrio o aviso de um navio
sua carga são lembranças vivas
que ansioso espero


Rio de Janeiro, novembro de 2009








SUGESTÕES OUTONAIS



I

a floração ainda não dera frutos
mas amei perdidamente
o perfume das flores

II

será o outono
a véspera do inverno
ou meu tempo de viver?

III

sob o vento hibernal
acarinho religiosamente
as folhas do outono

IV

em campo aberto
vivo a nostalgia de estar só

V

o mar diante de mim
ondula preguiçosamente seu vai-e-vem


Rio, novembro de 2009


O PÁSSARO FERIDO





sonhei e
entretanto não me lembro
o dia nem tão longínquo
em que tudo aconteceu

sinto ainda à distância o rumor dos passos
e uma canção
sopra em folhas mortas
a melodia da esperança

e porque essa canção?
por que são os passos jovens
do futuro que espero
em pleno outono

sonhei que sonhava e acreditei
no pássaro ferido
que me feriu

um breve sonho e acordei
em meio ao sonho
que ainda vivo.


Rio, novembro de 2009



MOTE DA MUDANÇA







tudo muda tudo se transforma
mote permanente da poesia
quanta alegria em tristeza forma
um jardim sem flores
secos de amores

inclemente sol nuvem fugidia
antes azul o céu prepara a noite
e o homem passa no que já sabia
seu destino rude sob vil açoite

não perdôa o tempo
a alegria vã
e promete o sono
e o silêncio frio

Rio de Janeiro, 13 de novembro de 2009 [sexta-feira]



domingo, 1 de novembro de 2009

MELODIA DE OUTONO





essa música que chamei poesia
tão suave no fim do dia
é o que me resta desse longo vôo

na distante verdade do passado
sou grato de haver sido poupado
de momentos de melancolia

deixo três ou quatro sílabas
alinhadas em palavras
colhidas como folhas caídas
nesse outono quase findo

entre o sonho e o sono
sobrevôo o sensível
do que ainda são folhas
apenas orvalhadas

há uma estranha alegria
em sabê-las úmidas
tomem-nas como ousadia
não as queria perder
são a minha poesia

Rio, novembro de 2009