quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

VERSOS ILUSÓRIOS



o tempo não reteve a hora
nem guardou os dias
de que me lembro
tudo tão breve
para um homem perplexo
que vê os anos caídos em folhas
sutilmente amarelas 
dissipadas


é exuberante em desejos o fim
como o sol que se põe 
iluminando de vermelho
as nuvens mais altas
testemunhas do astro 
irredento
ao fim de seu dia


não é a noite que amedronta
mas a ausência do dia
a melancolia do que perdi
o amor como ramo debruçado
sobre a margem de um rio
molhado ainda
choroso
pelas águas que passaram
no seu irrepreensível caminho
em busca do mar


eu me sinto assim saudoso
feliz de mais um dia
esperançoso
do que virá


estes versos ilusórios meditam para entreter
limpos e frios na madrugada silenciosa
a saudade que de mim tenho
em tempos outros que não voltam mais...


Rio, janeiro de 2012.






segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O DESTINO DO POEMA





o poema é um salto no escuro
pode luzir 
como fogo fátuo brilhar
mas se no fundo bater
ninguém saberá que existiu




Rio, janeiro de 2012.





domingo, 22 de janeiro de 2012

Poema de um jovem amigo [19 anos]

Fausi Kalaoum


Eu sou feito de camadas, cascas e cascos
eu sou hostil 
uso espinhos, pedras e até palavras para ferir
e meus alvos ? ah ! São mais de mil 
menos que uma infinidade
eu sou selado de ironia, maus olhares e veneno
e se tentam me violar
lanço fagulhas,

agulhas e espadas
que ferem tão mais 
e tão menos
por dentro eu sou negro 
como por fora
mas há as entrelinhas, e como há
mas elas são cheias de rabiscos coloridos e sem cores
e há os que não podem ler 
os que podem mas não
e fico aguardando o alguém que vá me decifrar
por que eu sou feito de camadas, amadas e sofridas
polidas de espera
saturadas de pretensões





Queimados, janeiro de 2012

sábado, 21 de janeiro de 2012

TEU CORPO TUA ALMA

a um amigo querido

não te esqueças

ama teu corpo
que o tens pela vida

guarda tua alma
que te sobreviverá

lembra da estrada
caminho seguro
que pensei te ensinar




Rio, janeiro de 2012.





AS COISAS LINDAS AS COISAS FINDAS

para minha mulher


sonho em pleno dia com o que temos
com os elos que nos ligam
sonho no sono calmo
depois de uma vida
antes da partida


por todos os lados ouço
sinais inaudíveis
invisíveis
mas presentes
como sonata límpida e serena 
em quatro movimentos


escuto essa música no ocaso da alma
feliz porque a compusemos


nada perdemos 
ganhamos
só o tempo passou


assim
sem solução


mas quanta beleza trouxemos 
desde que nos demos as mãos


enfim há diferenças entre ontem e amanhã
o que foi é lindo
como as coisas findas de Drummond
mas muito mais que lindas
são como flores em botão


Aninha Alice
Pedro e logo Lucas
pelo tempo que nos resta
encantarão


a vida já vivida muito mais que sonho
é conquista
que a memória torna lembrança
tão linda


as coisas findas são a música
a propor que o amor existe
porque assim tocada 
resgata a verdadeira canção  


Rio, janeiro de 2012.






sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

VIDA PENSADA VIDA VIVIDA





resposta a Maria Luiza:
mas a vida, minha querida,
nada pode nos dar
exceto o que podemos conquistar.
   




nem pensada nem vivida
a vida é o que temos
sem escolha


será a vida sofrida
ou para sempre gozada?


não será a vida apenas o que nos tornamos
quando já nada podemos 
e as energias perdidas?


o que sei é que ainda desejo viver
de resto
nem Pessoa pode dizer...


Rio, janeiro de 2012





sábado, 14 de janeiro de 2012

UMA DECLARAÇÃO DE AMOR AO RIO



encontrei um carioca na praia
finalmente
entre brancos paulistas
e louros catarinenses
era sábado à tarde do mês de janeiro
e lá estava ele inteiro
mulato maneiro
branco inzoneiro
negro para mostrar o negro
da musculatura malhada
todas as peles molhadas
espelhos de sal ao sol


como pupila de criança
descobri o carioca
neste verão do Rio
de janeiro a janeiro


sem desprezar os turistas
olhei só o encanto
de gente tão dengue
cheia de eternidade
em suas formas douradas
nesta cidade
resumo da beleza do mundo
bem amada
razão e fundo da delicia de viver


ah cariocas súmula de todo o país
criastes em Ipanema [Flamengo Irajá ou Leblon] 
essa gente
diligente esperta inteligente
a conjugar o seu mar
do presente
nos tempos do verbo amar


Rio, janeiro de 2012.