terça-feira, 6 de maio de 2008

CONSUMO DE PALAVRAS [13]



dever de extravagância
liberdade sem trancar
fazer de mim poeta
que regra?

quero palavras e versos
sentido no sem sentido
e o esforço de existir

cumprissem sua tarefa
soassem
palavras se tornariam ícones
pedras minha tensão

anônimos versos distantes
dispersos são como gritos

estróina poeta
ninguém consome poemas


Roma, julho de 2004.

SEGREDO [12]



quem me vê não conhece
pensa conhecer e não vê
vivo aquém de mim
moro bem mais além...

palavras que não ouso
palavras não me dizem
o que posso e o que quero
quase sempre sem poder

tenho na alma o meu segredo
escondo-o do coração
a realidade só revela
o meu degredo.

Londres, 6 de março de 2008.

VERSOS INCONJUNTOS [11]



Não sou poeta por juntar palavras
mas encantam-me as cores no verão

a primavera são flores
manhãs que furtam do inverno
intimidade e espaço

palavras flores e cores
cada silêncio em seu lugar
rosas brancas no jardim

é muito pouco o que quero
e desse pouco desejo
não faço nenhum mistério

o balanço de meu verso
debruçado na janela
aquecido pela manhã.


Londres, maio de 2008.

VERSOS E PALAVRAS [10]



Deixo meus versos para quem os leia
num dia de chuva e de melancolia
eles terão o corpo trêmulo de alegria
e a tristeza que pensei como beleza.

Meus versos serão teu rosto
olhos da alma que neles hei posto
tuas mãos todo o carinho
na trégua da distância
sob a magia em desalinho
de meu pasmo.

Escrevo como fiz na vida sexo
junto palavras como juntei corpos
nessa cópula que dá vida ao nexo
para fundir idéias
e suspender meu tempo.

Versos e palavras entretêm teu sonho
e eu pensando em tudo isso
escrevo para não ser omisso
deixando-os fluir ao vento.

Londres, maio de 2008.


ALCANCE [9]



De tanto que eu queria
o que teu amor não contempla
de tanto desejar o que não me podes dar
se mo pedisses agora
antes que eu sentisse morreria.

Londres, abril de 2008.

AD HOMINEM [8]



de que fonte
de que boca a fala consente
de que explosão bate o coração
de que rios a idéia se forma
nesse mar que afoga?

a verdade talvez exista
suprimida ou escondida

e o corpo nesta descida

não perguntes
ouve o murmúrio das fontes
e acredita

o Verbo foi perdido

não há verdade
nem há vontade
o Criador já criou
o que temos é a roda d'água

agora é administrar perdas
maximizar ganhos
deixar que o mundo acabe
fingir segredos
mentir que o efeito estufa
e deixar-se estufar neste degredo

o deuses são homens confinados
imaginando um deus maior
que lhes é igual

vacilantes perdem os dedos
só nos resta cantar
cantemos

Londres, abril de 2008
.

A BUSCA [7]



não perguntes não pesquises
razões se as há

no meu canto
a palavra não existe
eu a quero criar

o ar é pouco
o mar é longe
a montanha fugidia
donde vem?

assim a angústia
no compasso de razões
pulsa em velho coração

sem ela
viver é sem razão

solidão
onde estou faltam palavras


Londres, fevereiro de 2008.