sábado, 10 de maio de 2008

MANHÃ



ondas derramam espumas
sobre areias perplexas com a intimidade do mar

o movimento desperta a sensualidade
atravessada pelo sol no limiar da manhã
irreversível


Londres, saudade do Rio em pleno inverno 2008

sexta-feira, 9 de maio de 2008

...


...

polidez enviesada

indireta à úmida janela
onde o desejo não se revela
fascinante não fosse sombra
pedra lisa
em meio ao oceano


Londres, fevereiro de 2008.

PEDRA



é difícil a ilusão
do alto do penhasco

pedra abaixo
olhos fechados

feridos pelo tempo

amigos preparam essa caída
mergulhados na areia quase líquida


Londres, fevereiro de 2008.

NÓS [de laços e nós]


nos laços a vida enlaça e tece nós
górdios
impossível desatar
laços que desatam foram nós também
que amarraram e nos perderam
eram só nós
sem circunstância
acidentais

quando os olhos são brancos
se não podem ouvir o pranto
o nó sufoca o grito
na garganta o nó é cego
não é górdio o cego

gente que vai
seiva que esvai
passam
não se cruzam jamais
não somos nós que nos queremos
sombra que não vemos
nossas mãos entrelaçam-se
por isso temos nós os dedos
sempre nós
mão na mão
juntas como nós
nos aceitamos.

Roma, 19 de abril de 2002

quarta-feira, 7 de maio de 2008

PRÊMIO POEMBLOG


Eugénio de Andrade diz em um poema:

"Um amigo é às vezes o deserto,
outras a água.
Desprende-te do ínfimo rumor
de agosto; nem sempre

um corpo é o lugar da furtiva
luz despida, de carregados
limoeiros de pássaros
e o verão nos cabelos;

é na escura folhagem do sono
que brilha
a pele molhada,
a difícil floração da língua.

O real é a palavra. "

Outro dia recebi um prêmio de poesia concedido pelos editores de POEMBLOG [http://leaoramos.blogspot.com/] o que me encantou
a ponto de me sentir poeta.

O real é a palavra
assim transcrevo o poema
que é um pouco o subjetivo
de que o objetivo é minha função:

Emigrantes Imigrantes

DOWN THE RIVER DOWN


a muitos perdidos nesta cidade dura
[ao imigrante]




encontrei-o numa rua de Londres
escura e cinza mas havia brilho
no olhar que dizia da crença
de um lugar ao sol
onde o calor aquece a alma
entre duas batidas do coração.

no outro dia vi-o em outra rua
ensimesmado destruído
mas havia brilho jovem no olhar entristecido
a recordar a fé
no retorno se tudo não der certo

vi você várias vezes vários dias
no ensaio impreciso de ser sem reconhecer
o ruído de linguagens hiatos de silêncio
discutindo o passo
o peso a medida o custo em valores estranhos
no cálculo insistente do que nunca se tem

estranho a seus próprios sonhos
você não tinha nome nem os lugares tinham
em que o vi
tudo isso foi há muito tempo
asas desgarradas
azul que não mais se vê

mas a terra na memória
presente que se busca fora
para desencontrar-se desesperadamente dentro

unknown places
strange faces
hostile world
away from home
manifold

você estava só
e a multidão em torno acentua a solidão
no amor do nada
sussurros sombras suspiros
passo a passo o instinto reabre
o livro do tempo
e suas imprecisões

ansiedades afloram fantasmas
sombras em rio enclausurado
que avança e reflui sempre indeciso

um dia inútil
mal pensado mal vivido mal sonhado…
no modo ingrato de pensar
o próximo passo a hora seguinte o minuto que não passa
na espera já quase eterna
que o distancia de tudo e do interesse no mundo

esvai-se o tempo na manhã de vidro
tateia no escuro a noite exasperada
também o dia morre

the Sun itself, which makes times,

as they [all glory of honours all kings] pass, is elder by a year now…[1]

mais um dia e a alegria prometida
o mar é longe o ar é frio
preguiçosa
tragédia de buscar fratura no tempo
e desencontrar esse abandono
nas ruas desertas
a luz queimada
o homem inteiro dividido
ao meio estranho
desgarrado anseio
devassada realidade crua
de sobreviver para comer
o vento frio a carne nua

tropical para o calor do sol
você de novo em outra esquina
equívoco
um pouco menos fatigado
esquivo
ensaia palavras
olhos onde mora a alma em busca
perde sílabas
horror do erro
da linguagem do passado
presente e esquecido
e todo o tempo lembrado
mesclado em cores sem futuro
no caminho sem rumo
em plena selva escura
de quem desconheceu o inferno antes

palavra que fenece
mensagem do além mar trêmula alegria
da antiga certeza
da realidade perseguida noite e dia:
- lute mas não sucumba à mera luta
não desista mas não perca a vida
desarmado deslustrado ignorado

eu encontrei em você um homem
disposto a tudo
transposto do passado
o presente pronto em plena escuridão
onde não o reconhecem
nem ouvem
nem o vêm
em plena floração

usado abusado no desconsolado comércio de palavras
mal ouvidas mal sentidas descomprometidas
polidez fácil desamor
entendimento entrecruzado entre hiatos
de moedas dispendidas
na sede seca de amor
a qualquer preço
nesta praça que não é a outra

sai de cena
a cada entrada no túnel
em um trem de underground
perseguindo túneis
para lugar nenhum
derradeiro

olhar a dúvida muitas vezes medo
do espelho estilhaçado
no South Bank over a bridge
people strange people
down down socorro
down


Londres, fevereiro de 2007.


[1] John Donne [1572-1631] from The Anniversary

SCHERZANDO



Scherzo
NÃO PENSAR É SÓ PENSAR
[Millor?]


aos meus amigos para dar trabalho ao cérebro


“Sólo se mueven las cosas que no cambian.”
[Abel Martin e o mote sobre o movimento]


a imutabilidade é movimento
espaço movimento mutação
testemunho


pedras de Santorini


imóveis no tempo humano
como o universo em nós
paralizado
e entretanto movem-se

movem-se e portanto não mudam
ou
mudam e entretanto não se movem

talvez
em qualquer ponto no meu tempo
o movimento congelado
no tempo move-se

“Tudo é orgulho e inconsciência […] a química direta da natureza não deixa lugar vago para o pensamento.”

[Creio que Fernando Pessoa]

o testemunho não ocupa espaço
é desprezível na simbologia das pedras
entretanto do ponto infinitesimal em que me encontro
é o universo inteiro

e solo cambian las cosas que se mueven
o
no cambian las cosas que no se mueven


[certamente eu mesmo]

ínvios e incertos
não duvides
da inutilidade da dúvida
da incerteza do inútil
da inutilidade da certeza.


Londres de antes de sempre e depois 2008.

Plágio ao contrário


[escrita no ano 2000 modernizada em Londres 2008]


“Mon âme en est triste à la fin,
Elle est triste enfin d’être lasse,
Elle est lasse enfin d’être en vain.”
M.Maeterlink/Manuel Bandeira



Minh’alma não é triste nem triste está
talvez cansada do corpo
velho e acabado
chega lá
rodeia ponteia passeia
já não quer muito só o quer morto.

O corpo sim é triste
viveu demais
não encontra razões quem sabe aquele alongado sopro
a vida um pouco mais
p’ra fazer valer o coração
e afirmar que nada foi em vão.

NYC, fevereiro de 2.000.