sábado, 25 de setembro de 2010

DEMOCRACIA



DEMOCRACIA



Quanto faças, supremamente faze
Mais vale, se a memória é quanto temos,
Lembrar muito que pouco.
E se o muito no pouco te é possível,
mais ampla liberdade de lembrança
Te tornará teu dono.

[Fernando Pessoa]



Se donos ainda não somos, sejamos:

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terça-feira, 21 de setembro de 2010

SINGULARIDADE








quisera viver o tempo simultâneo
saudar o crepúsculo na aurora
tocar neve no Saara
ser eu mesmo e tantos outros
sob o azul do céu intenso
para esquentar-me frio ao vento do inferno

duplo de mim mesmo
carente e solitário
gregário e suficiente

sou eu mesmo sou mais de um
sou muitos em mim mesmo
e ninguém sou
e nada sendo nada espero
dos fatos singulares

Rio, 21 de setembro de 2010.



segunda-feira, 20 de setembro de 2010

SETEMBROS


setembros [Nydia Bonetti]

o tempo
corrói a vida pelas bordas
insaciável
já devorou
mais da metade do que sou
[...ou do que fui?
e nos setembros
ele arranca pedaços
inteiros




quando setembro vier será outono lá mas a primavera romperá aqui as flores do renascer
a alegria tomará o espaço onde a vida nos ensinará a amar a beleza que nos transcenderá
não
o insaciável tempo não nos sacia a sede da beleza que nos trará setembro a cada ano que está por vir
Nydia
o teu setembro é poesia...

Rio, setembro de 2010



domingo, 19 de setembro de 2010

VÔO CURTO







esta noite durmo inquieto
porque nada do que dissestes
parece tudo

sei que procuro a idéia impossível
do recíproco
no deserto de todos os ecos

de meu sonho de identidades
nada é igual
nem sobrevive à aridez dos sentimentos contrastantes

que posso eu se não me respondes?
que sonhar na ausência do ar
onde voar?

minhas asas são imensamente curtas
para tão seca atmosfera
meu grito não ecoa

sinto-me só

São Paulo, 19 de setembro de 2010



domingo, 12 de setembro de 2010

DESESPERANÇA ESPERANÇA





com grande esperança cantei o canto da esperança
não a matei que ainda vive
de meus pensamentos
mesmo que "o breve ser da mágoa" pese-me
mas me resta a vida

entretanto choro porque chorei o que cantara
no princípio da desesperança
na grande dor de ver a mágoa fluir de enganos
de tanto sentimento

"o que inda que mágoa, é vida"

nada mudou do que importa
o amor ficou
e quando é grande move-se
consente na doçura da vontade
"que nunca se poderá ver apartada"
de um e outro no sonho de viver
o que há-de vir
para reconstruir da esperança débil
que se aloja na beleza da alma
e vôa o sonho das aves
com espaço e liberdade
para viver o dom da vida
de amar o verdadeiro a verdade o amor inteiro
e fluir na direção do que deve ser
do presente que é criança e será homem
sem esquecer de nada esquecendo tudo
para crescer e ser feliz

um amigo é beleza para sempre
às vezes o deserto mas verdade
sempre água e lealdade
o amigo é beleza renovada

quando o temos há beleza no presente
e será mais nova a beleza do futuro
onde há luz
e esperança
se sabemos perdoar
e queremos reviver a esperança
teremos tudo
e a alegria da beleza para sempre [beauty is joy forever - Keats]



Rio, 12.09.2010




domingo, 29 de agosto de 2010

UIVOS






regresso ao dia e vivo a alegria
de sentir-te presente como chuva
que umedece o seco de meus dias

estás aqui no verso e no anverso
de tudo que escrevo e do que penso
neste inesgotável universo

como tudo que nele se contém
ventos e auroras boreais
o equilíbrio ainda se mantém

palavras decifradas uma a uma
tremem luzem choram esplodem
como lamento de lobos sob a lua

o que espero das forças que se batem
flutuando no limite de meu corpo
já nem sei espero que se atem

há tanta coisa que não sabes
desta chuva de gotas orvalhadas
e muito mais entre bens e alguns males

por um momento fazes-me viver
não estou só parece dia
nos teus chamados pronto a reviver

olha os rios que descem ribanceiras
são mesmo rio em águas diferentes
sou eu que fico no molde das pedreiras

Rio, agosto de 2010



sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O SONHO DAS AVES





não há mais tempo para segredos
diante da fúria dos sonhos
e o sol do silêncio não nos aquece

nenhuma frase deve ser dita
perderam o sentido original
e vem o cansaço

meu corpo desgasta a alma
quando tudo que eu acreditava
é pouco ou quase nada

tivemos o momento e não o soubemos perceber
quando passava
e todas as idéias pareciam verdades

e no entanto sinto a aragem da esperança
na racionalidade dos fatos
e nas coisas que ainda são crianças

o passado é inútil se o abandonamos
à vil memória dos erros e enganos
mas ainda há tempo no presente

como ventos que se entrecruzam
produzimos tempestades
mas o dia nasce avassaladoramente

é possível regressar à claridade
mas há pedras no caminho
enquanto tento recuperar o sonho

estamos ambos inteiros
mas nos falta a mesma verdade
e o dia é lealdade

volto a meu espaço meço os caminhos
para avançar sozinho
se não conseguirmos sonhar novamente

fico com as aves

Rio, agosto de 2010