quarta-feira, 14 de março de 2012

UM DIA DE POESIA



como pedra em mim nasce o poema
de um momento seco
que entretenho há tempo
e não conheço


eclode o eco que sou eu
quando há bruma
e a noite é não fazer
sob luz quieta o sonho renascer


e no entanto um sentimento de ternura
em torno de um mistério sem segredos
é uma entrega em palavras


instante mágico
quando a pedra original desfaz-se em água
descendo o canto ao papel jornal


Rio, marco de 2012.




A LUA [sob a luz do luar]



para o Márcio, meu irmão



a  Lua é diferente cada dia não pode ser igual
nem  a alegria repete a brisa que sopra do mar
a alegria é minha a brisa só vem do mar

todo sonho vem da Lua são sonhos diferentes

cada ser é um homem só ele só [às vezes] sabe quem é
os olhos que tem da Lua são dele de mais ninguém


ser diferente é dom da criação assim nasce a gente
essa diversidade e o mundo essa alegria de ser


percebemos as coisas como são nós as sentimos 
a maçã a lua a montanha são riquezas por não serem iguais


se eu morrer levarei comigo o meu sol meu mar meu amor
mas todos ficarão aqui para cada um de vocês


irão eles comigo ficarão todos aqui
os que foram foram comigo
mas a Lua ah a Lua os fará sonhar
por anos e anos ao fim  

sim as coisas são diferentes porque diferentes elas são


cada homem tem sua Lua cada mulher sua maçã
cada lua dá à maçã o homem que a mulher tem

a Lua é diferente porque  assim tem de ser 

Rio, março de 2012.



terça-feira, 13 de março de 2012

MEU BARCO



alguma coisa aconteceu
o meu barco está sem rumo
as estrelas do céu não me ajudam a navegar
o oceano bate impiedoso
há pedras à frente talvez terra
e um cais onde ancorar
cabe tentar
não naveguei a vida toda 
para receber a morte
assim de maneira imprevista
o oceano é largo
mas a batida do mar forte 
é ameaça antes do cais
vou vendo o que o mar me reserva
traiçoeiro por vezes
imprevisível ele é
preciso medir as ondas para não me deixar enganar
o tempo é a grande medida
inevitável é a morte
de que não se pode escapar
mas se a pedra rija   
e o mar impetuoso
não insistirem teimosos 
a quilha talvez intacta
talvez talvez talvez
ainda possa aportar


Rio, 13 de março de 2012.



segunda-feira, 12 de março de 2012

A CASA



a casa é simples o coração mais complexo
porta para os amigos fechada a desafetos
janelas para entrar ar e olhar 


pouco dinheiro para ocupar prateleiras pela metade da fome


a casa é branca caiada corações janelas portas azuis
a sala vazia do escasso sofá de modo a que sempre caiba ventilador e TV


a cozinha é coração cansado de tanto bater
da mulher com olhos de espera cansada do que pedirão 


o ladrilho do chão falta aos pés que os pisarão
juntam água lambendo paredes negras de fumo
sob luz sobre sombra

no quarto cama trazida de onde não sei
um homem dorme em silêncio ronca quieta tensão


outras camas juntadas demônios ou anjos da noite
sonham em segredo vento quente verão 


vagas pessoas na sala cerveja quente na mão
sem dizer de onde vêm não anunciam onde vão


no quintal nada se passa exceto o cão a ladrar
mangueira que não dá manga galinha ligeira mais magra

escrevo
e tu a me ler
 




Rio, março de 2012.



domingo, 11 de março de 2012

ANTIGO AMANTE



branca areia eternizada pelo mar grisalho que em tua cama deita a quieta fúria em ondas do delírio percebido no surfar erótico de jovens dourados entregues ao ritual de te desvirginar  branca areia do mar desmantelado da sensualidade exposta em movimentos ritmados excitante de todos os sentidos a ti dedico a fé e o silêncio de oração ao vento sibilante eu que sou antigo teu amante  


Rio, março de 2012.


ILHA



tu és a ilha escolhida em pleno mar para isolar-me e amar teu corpo sinuoso tua boca exangue teu calor sempre inocente  Tu és a ilha do desejo incandescente a arder meu mundo de cores tão sombrias vermelho sangue último sopro de meu corpo agora que morrer não é segredo agora que o amor foi desvendado tu sempre tu no sonho de ontem e de hoje desenhando em traços fortes o futuro curto que tornarei eternidade 


Rio, março de 2012.


AMAR O MUNDO



amo-te mundo de guerras e amores amo-te no meu tempo de viver porque enfim não ser seria impedimento de amar Amo-te no universo de meu ser em prosa e verso amo-te e por amar-te peno a delícia do corpo ignorada a alma toda ela resumida em dor 


Rio, março de 2012.