quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

CANTIGA FORA DO TEMPO



se por outro me trocares
se for para me deixares
não esperes testamento 
nenhuma justiça
serei apenas aquele que morreu


lá no etéreo serei esquecido
mas jamais esquecerei
o tempo embevecido
que a teu lado vivi


não há nem bem nem bom
nem qualquer toque  
que me salvarão da saudade
de quanto valeu a vertigem
tão breve tão curta tão linda 


na ilusão dos sentidos 
esta alma que é tua
ao teu lado há de ficar [2]
para contigo repicar
o bom e o bem de viver


tanto tempo tão pouco
para ao teu lado estar
mas se é para me deixares
quero gozar o momento
antes de acabar.


como será por dentro sonhar
de não partir e ficar


ah se pudesses saber o que sinto
talvez não me deixasses partir
não minto
do bem que me traz tal sentir


por isso guardo comigo
o que não é de ninguém
nem mesmo reparto contigo
o querer que não pude ter


Rio, dezembro de 2011.


[2] Camões





terça-feira, 6 de dezembro de 2011

PASSADO PRESENTE FUTURO





deixei tudo no passado
atado ao sol já no horizonte deitado
foram outros tempos uma vida
no projeto de um futuro terminado


inútil não foi o que fiz
o que faço é memória
longe da melancolia


estou na antemanhã
do haver o que me diz o dia
a cantar saudade não tristezas
desfeitas ilusões que a vida aquece
no entrever futuro hoje passado


deixei tudo e não perdi


sou olhos no presente
debruçado sobre o inimaginável futuro
"só com somente a adivinhar" [*]
homens de todos os tempos empurrando o tempo
em sua obra de sobreviver
aos sonhos projetados
e ao sol nascente


Rio, dezembro de 2011.


* Fernando Pessoa

sábado, 3 de dezembro de 2011

INCÓGNITA



meu canto vale por um dia
feliz por ter vivido tanto
nessa ida que se faz encanto
em busca de beleza e alegria


sou dois hoje 
o que fui e o que me tornei
neste diálogo falho com a alma
sem tormento...a calma
de quem sou em tudo que serei


e o dia que termina
não me tira a paz
renova invés ainda estonteado
um novo tempo em que germina
o sonho procurado


o tempo não me impede despertar
no outro dia sem mais sombras
passada escura a noite fria
do que fui
   
Rio, dezembro de 2011.



sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

ASAS





antes que o tempo passasse
encontrei o mundo
e não havia sombras


diverso na tentação
eu estava livre
da minha vida antiga


estranha percepção
de navegar distante
na direção de tudo
sem perder nada


sem esquecer a vida que em mim viveu
secretamente deixei-a
para ter asas
neste poema


Rio, dezembro de 2011.





UM GRITO







...acordo 
toco-me incrédulo
estou vivo! 
olho em torno e vejo a luz que penetra sutilmente pela veneziana
respiro o ar fresco
e o mistério instala-se
para deixar-me encantado 
com a sensação de outro dia


estou vivo e capaz de lembrar-me doperações banais


o sol tímido desponta entre o cinza pesado de nuvens
que teimam em não partir
vejo o mar
derramando-se
tão próximo de mim


sonho a vida e nada me dói 

estou vivo para mais velho um dia
debruçar-me à janela 
e livre do mistério da noite
despertar dos sonhos
uns bons outros estranhos
formas de pensar
em quem amo quando feliz
no que odeio
em fantasmas que me assombram


na rua o barulho 
enche-me de horror
horror indefinido
que me tira de dentro de mim

percebo partes do engano
que inventamos
para burlar desígnios divinos


não culpo ninguém por isso
tenho de quem me ocupar
convenço-me do potencial 
de meu amor não só à vida
mas a pessoas que a vida trouxe 
para encantar-me


não estou isento de ódios
é humano odiar
os que trazem mal em suas ações
que o induzem a erro
e desviam outros dos caminhos retos da vida


odeio a mentira e a deslealdade
a nortear comportamentos distorcidos
sob falsas razões
da face negra da alma que desestimula a vontade
e protege a lascívia dos desejos  
de nenhuma auto-estima


no abismo da pobreza nada floresce
exceto a ignorância do abandono
a carência do amor
nos vícios das ruas
distorções que se tornam regras
no conflito entre não ser e parecer ser


quanto mais compreendo isso
mais entendo as razões dos comportamentos
dos mal-feitos das distorções morais
a fazer brotar na alma envilecida
desejos inconfessos parecidos naturais


o sono e o sonho mantém-me vivo para outro dia
para o estranho juízo de tudo 


são vielas do descaminho
não serei o cronômetro do tempo
a desligar sem deixar traço
não 
não me autorizo a ser um saco de colher vento
para acabar como a pedra
atirada no abismo sem fundo do desaparecimento

há-que arrancar máscaras 
há que lutar contra a escura escuridão
da desgraça e da ingratidão
de negar a humana condição




Rio, dezembro de 2011.





quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

SETENTA E UM



pela janela vejo o mundo
e a liberdade viva e buliçosa
pessoas que não conheço mas felizes
jovens adultos "terceira idade"
celebram vida
nos sonhos curtida em tempos de censura
convenientes
sem censura agora


aos setenta e um sinto-me livre
para ser feliz lá fora
na alegria de conviver com todos 
e viver netos
que me amam como os amo
lúcido lúdico na mesma festa
lá fora aqui dentro


sinto a hora
sou pessimista quando devo ser
mas a felicidade a vivo bela
está dentro de mim
na liberdade de ser quem sou agora






Rio, primeiro de dezembro de 2011.





quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O TODO O TUDO O NADA





tudo é parte tudo é começo
o todo o tudo
tudo é recomeço


sorrio do poder das frases
rio-me das palavras
porque não dizem nada
combinam-se
transbordando a imaginação
de quem as escreve
ou de quem as lê
e de quem as repete combinadas 
e clama aos homens
"isto é um poema"
será?


tudo transforma-se no todo
que é apenas parte
do que o caos universal
tornou em cosmos
a obedecer as leis da ciência
catalogada pelo homem que se perde no exercício
de dar ordem à ilogicidade de tudo


não é necessário imaginação
para entender que o todo é tudo
navegando sobre o nada


Rio, novembro de 2011.