se por outro me trocares
se for para me deixares
não esperes testamento
nenhuma justiça
serei apenas aquele que morreu
lá no etéreo serei esquecido
mas jamais esquecerei
o tempo embevecido
que a teu lado vivi
não há nem bem nem bom
nem qualquer toque
que me salvarão da saudade
de quanto valeu a vertigem
tão breve tão curta tão linda
na ilusão dos sentidos
esta alma que é tua
ao teu lado há de ficar [2]
para contigo repicar
o bom e o bem de viver
tanto tempo tão pouco
para ao teu lado estar
mas se é para me deixares
quero gozar o momento
antes de acabar.
como será por dentro sonhar
de não partir e ficar
ah se pudesses saber o que sinto
talvez não me deixasses partir
não minto
do bem que me traz tal sentir
por isso guardo comigo
o que não é de ninguém
nem mesmo reparto contigo
o querer que não pude ter
Rio, dezembro de 2011.
[2] Camões
deixei tudo no passado
atado ao sol já no horizonte deitado
foram outros tempos uma vida
no projeto de um futuro terminado
inútil não foi o que fiz
o que faço é memória
longe da melancolia
estou na antemanhã
do haver o que me diz o dia
a cantar saudade não tristezas
desfeitas ilusões que a vida aquece
no entrever futuro hoje passado
deixei tudo e não perdi
sou olhos no presente
debruçado sobre o inimaginável futuro
"só com somente a adivinhar" [*]
homens de todos os tempos empurrando o tempo
em sua obra de sobreviver
aos sonhos projetados
e ao sol nascente
Rio, dezembro de 2011.
* Fernando Pessoa
meu canto vale por um dia
feliz por ter vivido tanto
nessa ida que se faz encanto
em busca de beleza e alegria
sou dois hoje
o que fui e o que me tornei
neste diálogo falho com a alma
sem tormento...a calma
de quem sou em tudo que serei
e o dia que termina
não me tira a paz
renova invés ainda estonteado
um novo tempo em que germina
o sonho procurado
o tempo não me impede despertar
no outro dia sem mais sombras
passada escura a noite fria
do que fui
Rio, dezembro de 2011.
antes que o tempo passasse
encontrei o mundo
e não havia sombras
diverso na tentação
eu estava livre
da minha vida antiga
estranha percepção
de navegar distante
na direção de tudo
sem perder nada
sem esquecer a vida que em mim viveu
secretamente deixei-a
para ter asas
neste poema
Rio, dezembro de 2011.
...acordo
toco-me incrédulo
estou vivo!
olho em torno e vejo a luz que penetra sutilmente pela veneziana
respiro o ar fresco
e o mistério instala-se
para deixar-me encantado
com a sensação de outro dia
estou vivo e capaz de lembrar-me de operações banais
o sol tímido desponta entre o cinza pesado de nuvens
que teimam em não partir
vejo o mar
derramando-se
tão próximo de mim
sonho a vida e nada me dói
estou vivo para mais velho um dia
debruçar-me à janela
e livre do mistério da noite
despertar dos sonhos
uns bons outros estranhos
formas de pensar
em quem amo quando feliz
no que odeio
em fantasmas que me assombram
na rua o barulho
enche-me de horror
horror indefinido
que me tira de dentro de mim
percebo partes do engano
que inventamos
para burlar desígnios divinos
não culpo ninguém por isso
tenho de quem me ocupar
convenço-me do potencial
de meu amor não só à vida
mas a pessoas que a vida trouxe
para encantar-me
não estou isento de ódios
é humano odiar
os que trazem mal em suas ações
que o induzem a erro
e desviam outros dos caminhos retos da vida
odeio a mentira e a deslealdade
a nortear comportamentos distorcidos
sob falsas razões
da face negra da alma que desestimula a vontade
e protege a lascívia dos desejos
de nenhuma auto-estima
no abismo da pobreza nada floresce
exceto a ignorância do abandono
a carência do amor
nos vícios das ruas
distorções que se tornam regras
no conflito entre não ser e parecer ser
quanto mais compreendo isso
mais entendo as razões dos comportamentos
dos mal-feitos das distorções morais
a fazer brotar na alma envilecida
desejos inconfessos parecidos naturais
o sono e o sonho mantém-me vivo para outro dia
para o estranho juízo de tudo
são vielas do descaminho
não serei o cronômetro do tempo
a desligar sem deixar traço
não
não me autorizo a ser um saco de colher vento
para acabar como a pedra
atirada no abismo sem fundo do desaparecimento
há-que arrancar máscaras
há que lutar contra a escura escuridão
da desgraça e da ingratidão
de negar a humana condição
Rio, dezembro de 2011.
pela janela vejo o mundo
e a liberdade viva e buliçosa
pessoas que não conheço mas felizes
jovens adultos "terceira idade"
celebram vida
nos sonhos curtida em tempos de censura
convenientes
sem censura agora
aos setenta e um sinto-me livre
para ser feliz lá fora
na alegria de conviver com todos
e viver netos
que me amam como os amo
lúcido lúdico na mesma festa
lá fora aqui dentro
sinto a hora
sou pessimista quando devo ser
mas a felicidade a vivo bela
está dentro de mim
na liberdade de ser quem sou agora
Rio, primeiro de dezembro de 2011.
tudo é parte tudo é começo
o todo o tudo
tudo é recomeço
sorrio do poder das frases
rio-me das palavras
porque não dizem nada
combinam-se
transbordando a imaginação
de quem as escreve
ou de quem as lê
e de quem as repete combinadas
e clama aos homens
"isto é um poema"
será?
tudo transforma-se no todo
que é apenas parte
do que o caos universal
tornou em cosmos
a obedecer as leis da ciência
catalogada pelo homem que se perde no exercício
de dar ordem à ilogicidade de tudo
não é necessário imaginação
para entender que o todo é tudo
navegando sobre o nada
Rio, novembro de 2011.