domingo, 15 de junho de 2008

Diálogos londrinos em um ato


Amor [1]

pouco importa querida
a esperança é substantivo abstrato
é
existe porque você tem consciência
você é tão inteligente
estudou muito né?
sou filósofo
caramba
e o que curte?
trepar querida trepar

Amor [2]

por que julgas que amas?
sofro

Amor [3]

sou gatinha
deito enroladinha no seu colinho
quer?
não
quero um cachorrão

Amor [4]

ah agora mais essa cara
não sou consultor sentimental
mas estou super afim de chupar um cacete

Amor [5]

o que você faz aqui?
trabalho e estudo
fazia o mesmo no Brasil?
pior
parabéns que fazia lá?
era michê
e aqui?
sou travesti

Amor [6]

pensas que podes tudo?
bobagem
toma coragem fala
pra que se depois tu me deixa
eu te amo

vou descobrir quem você é
não pode vou desconetar


Olheiro

cara
a parada eh o seguinte
sim
olharaum e gostaraum
e vão contratar você?
estou esperando um empresário inglês

você é artista?
naum jogador de futebol

o velho tá falando com a FIFA
velho?
sim
quem?
um cara que me viu jogar
em que time jogava?
pelada de rua
e ele prometeu alguma coisa?
convidou pra eu vir pra Londres
e o que disse?
que tenho físico atlético

que sou craque pra time europeu
então é um técnico
quem?

quem convidou
naum
ele é olheiro de rua

Londres, janeiro de 2008

sábado, 14 de junho de 2008

Londres [tragédias londrinas]

Emprego
viu
arranjei um emprego
que bom
que vai fazer?
trabalhar
Paixão
tô apaixonado
brasileira?
não
inglês
Sociólogo
eu odeio o mundo
por que?
sou sociólogo
Desenlace
cara tô na pior
a Scotland Yard quer-me prender
qual foi o crime?
estou ilegal
logo agora que encontrei um inglês
velho rico e viado
pra me sustentar
Opção
saí de lá porque não me compreendiam
Uma noite
você sabe
procuro alguém que me faça feliz
nem que seja por uma noite
conta
já teve?
sim
e o que fizeram?
trepamos
Vida ganha
vim para tentar a vida
e como vai indo?
vou tentando
Latrina
e você que faz?
tô lavando latrina pra inglês
Namorado
eu tenho namorado
não importa
podemos nos ver
mas ele é ciumento
brasileiro?
não inglês
como é seu nome?
José Carlos
Metrô
Ah que sonho
aí deve ser ótimo
é
que faz todos os dias?
tomo o metrô
Chat inglês
meu tempo tá acabando
foi bom falar com você
obrigado
eu aprendi muito com sua experiência
advogado bom de papo
que vai fazer agora?
vou lavar copos num bar
Trabalho
que faz?
trabalho
Louca
sabe estou ficando louca
ora você é muito inteligente
deve agir com calma
está só com saudades
não é isso não
estou louca mesmo
Louco
tô doente
o que sente?
porra você não compreende
fale sem excitação
estou louco
Vida nova
vou ouvir você
tá bem você parece um homem legal
tem educação
à noite não durmo
de dia não tomo banho
sinto meu cheiro
não gosto das minhas mãos
sou um lixo
você não quer vir-me buscar?
.
Londres, janeiro de 2008

Cenas rápidas [Londres]

Comunicação

falar inglês é muito chato
só eles entendem

Certinho

aqui é tudo certinho
basta atravessar a rua com cuidado
olhar sempre pro lado errado

Realidade

acho que estou começando a me cansar de Londres
porque?
nada é real
é tudo em libras

Respeito

meu patrão é ótimo
logo que me contratou passou a mão nas minhas pernas
e vc?
eu reclamei
e ele?
Infelizmente nunca mais tentou

Patrões


e você se dá bem com seus patrões
sim
eles conversam com você?
perguntam do Brasil da sua família?
não
mas então de que conversam?
“good morning” quando eu chego
e?
“Goodbye”

Londres, janeiro de 2008.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

TUDO OU NADA?




por que longe
por que perto
por que nunca
por que sempre?

o que sei
do infinito
ou do finito?

é a vida nada
é a vida tudo?

o mistério é tudo

Londres, junho de 2008.

ECO [2]


Escrevo como quem grita
para sentir o silencioso eco
que não vem.

Canto como quem chora
para molhar os olhos secos
que não vêm.

Talvez me falte o tempo
talvez a voz
talvez o olhar
mas cer-ta-men-te a inspiração.

Londres, junho de 2008.

ADOLESCÊNCIA


ouço por vezes um rumor adolescente de saudade
e sinto como se o tempo não ventasse
e o vento incessante cessasse

haja outono haja inverno passe o tempo
mas que à véspera de nascer
o canto possa cantar
o primeiro som o primeiro sol

sinto ainda o menino frágil
a mergulhar na vida
sonhador
nesta saudade que me embala
como a folha outonal que desfolha
dourada e preguiçosa
e pousa ...


Londres, junho de 2008.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

SAUDADE [mote]



[glosas]

"Saudade! és a ressonância
de uma cantiga sentida,
que, embalando a nossa infância,
nos segue por toda a vida" [Da Costa e Silva]

ou [uma idéia antiga]

Saudade presença ausente
na memória do coração
ausência de tua presença
alimentando a paixão [Flávio]

ou [talvez à maneira de Vinicius]

A vida não é mais a mesma
não se pode amar sozinho
tristeza de tua ausência
tudo me falta e o carinho

[Flavio]

ou [de novo, tentativamente, Vinícius]

Amei e não tive medo
do coração não fiz segredo
quis fingir ao ver fugir
quem me quis fazer sentir
choro hoje a ausência
de tua doce presença
do que sinto ao dizer
que logo te quero ver

[Flavio]

ou [eu de novo]

Prisioneiro de teu carinho
és parte de meus segredos
prisão de minhas verdades
ansiedades e medos
só te sinto saudade

[Flavio]

ou [quem sabe, à maneira de Pessoa]

Não te entregues não te dês
a quem nem sentes nem vês
é a liberdade da lembrança
que te trará esperança
que a saudade retem

[Flavio]

Ou [à maneira clássica]

Havia de ser saudade
na vossa condição
aqueles olhos verdes
minha inteira perdição

[Flavio]

Ou [ainda com rubores clássicos]

Tormento e perigos sofri
inclinado ao pensamento
daquilo que não cabe em mi
e que podeis vir buscar
no sentimento do amor
que me domina o peito
à lembrança do amado
amor que não tem jeito
senão na alheia saudade

[Flavio]

ou [poemeto inglês]

I sense in your eyes
what senses feel
as lust raging for eternity

missing your sweet soul
I feel miserable
spy
watching on your presence
searching for reasons

loosing my senses

the god of my senses
the sole lover

infinity
not for reality
[Flavio]