sexta-feira, 9 de abril de 2010

TEMPORAL










finalmente o sol
recapturado
e o céu onde flutuam os anjos
infinitamente azul

a alva praia renovada
a gente revivida
e o sorriso

as águas correram para o mar
deixando atrás o que devemos recordar
para aprender
no rastro da destruição

e a natureza atravessa o caminho
em sua inteira liberdade

a vida é filha da necessidade
e o homem parte
que a deve compreender

aqui não nos prendem mais coisas que a vida
diz o Poeta
enquanto a chuva arrefece
radiante
uma nova manhã se oferece...

Rio, 9 de abril de 2010




segunda-feira, 5 de abril de 2010

REALIDADE OU SONO?





[depois de uma roda política na TV]


toca-me a incapacidade de dizer

qualquer coisa simples

frases ou palavras

que ninguém lê
na noite que chega obscurecendo idéias
[brilhantes?]
no anoitecer simultâneo da auto-crítica

a casa em silêncio cala-se
a rua não raro ruidosa
morta
e eu discuto entre mim e eu mesmo
a inutilidade de tudo

ouvir o silêncio pensar o vazio
completa o dia
e passo a noite a imaginar o que está por vir
do nada que deságua
em mar de imensa nostalgia

saudade inconsistente permeia esse vagar sem tempo
ou qualquer mágoa
de quando me ocupei de conceitos
sobre árabes e judeus
e absolutamente nenhum deus

isso de defender a pátria foi importante
ocupou-me por instantes
a razão em busca da emoção
de sentir próximo
o que era distante

olho sem opinião novos atores
e o cenário é o mesmo
que repete antigas bravatas
na eloqüência
da mediocridade dominante
que me rouba o sonho
mas não impede o sono

escrevo em busca da idéia
do sutil ruído
e-xas-pe-ra-da-men-te
vida
movimento
ou criação
mas a realidade não alimenta esperanças
mais além deste lamento...

Rio, abril de 2010



sexta-feira, 2 de abril de 2010

CONTAS








amei todos os lugares por onde displicentemente vaguei
nunca suprimi o prazer de descobrir e revelar
meus passos sobre caminhos reais
tão reais quanto o sentimento
de encontrar um amigo
um curso d'água
uma colina
ou o deserto

quando voltar o verão e o calor do sol me alcançar
recordarei o inverno
na estação dos frutos lembrarei das flores

a memória retorna a cada passo e divaga
em círculos
e aqui estou diante da imensidão do mar
escutando vagas que se quebram
e o vento que me afaga

sinto ainda o primeiro orvalho
da madrugada fria nos campos de meu pai
creio ainda na primeira chuva
seguida do verde que descia até a mata ciliar
ajo como a criança ainda
ainda a esperança
ainda sei amar

estou consciente de que a noite chega
e cada lugar por onde passei
ainda está
no mesmo lugar
só eu não estou mais lá

trago comigo o sentimento do mundo
como o Poeta
estou quite
não houve míngua nem sobra
e não exprimo tristeza mas alegria
com os olhos cheios
de realidade

nenhuma metafísica
mas o rumor do mundo e a visão das cousas
sem desolação
intimidade com a vida
e coração

Rio, abril de 2010





ADVERTÊNCIA








de onde vem esse silêncio repentino
onde encontrar
águas lambendo margens de ternura?

será que não dói
viver da imprecisão?

que música escutas
que pedra tens dentro de ti?

onde encontrar a sombra pura
do novo mundo
água e ponte
entre hoje e amanhã?

insistes na dúvida impermeável do silêncio
alma e corpo separados
vazio de melancolia

será aí que te escondes?
acorda!

de tua fantasia nada restará
não há outro caminho
ninguém sobrevive à partida da alma desgarrada

teu corpo sem alma esfriará

Rio, abril de 2010



quinta-feira, 1 de abril de 2010

FICAR PARTIR









podia falar de mim na ilusão de ser ouvido
antes do último vôo
mas tudo esqueço e omito o principal
implacável sinto-me só
no esforço de por ordem
na sucessão de versos que a noite inspira
e a angústia de querer ficar suspira
noites que imitam a grande noite
entregam-me migalhas em forma de palavras
e não me libertam
para que eu diga que estou feliz
dizendo o que sinto
triste falar do que não quero
e dizer de tal maneira que ouçam a minha voz
e nela não se encontrem ameaças
mas a alegria de permanecer
para noite após noite respirar a pureza da manhã


Rio, abril de 2010




quarta-feira, 31 de março de 2010

PEDRA DURA








leio meus versos e desconsolado penso
no poeta que não fui
há neles o tropeço do tempo
em pedra dura
que me atravessou o caminho
enquanto palavras primitivas
nada dizem do que sinto

estou presente entretanto à beira de meus versos
reconheço a arquitetura
e palavras percebidas uma a uma

sinto a urgência de dizer mas hesito
diante da imensa tarefa de entender


Rio, março de 2010.



domingo, 28 de março de 2010

DOS ANOS E DOS DIAS









todo dia é um novo dia
e hoje foi um dia inteiro
parte desse mistério do tempo
e março ainda nem terminou

pensei então no futuro
sem o compromisso do passado
e nada esqueci
neste implacável presente que não dura

por isso as palavras soam duras
porque tudo passa
e nem percebemos o que foi
para tornar-se mito

mas a cada gesto então
um pássaro despertava
para liberto
voar em espaço aberto

todas as coisas eram possíveis
vistas da janela de onde vislumbrei o mundo
um passado de todos os futuros
em que dias eram anos

não foi muito
mas bastou-me para entender o transitório
do dia no presente
quando cada dia
de outra forma
vale anos

Rio, março de 2010