sábado, 21 de abril de 2012

RÉQUIEM



...e o dia termina pagãmente
ao som de Mozart sem capelas
em seu Réquiem de indizível suavidade
solene ritual em que o divino
repousa fielmente sob o gênio




Rio, abril de 2012. 


sexta-feira, 20 de abril de 2012

APÓS MICHELANGELO



próximo à noite silenciosa 
um corpo espera o meu desejo
e nada me prende alcançá-lo
exceto a vida


reconheço nele a ternura
e a beleza equilibrada e pura
após Michelangelo o Davi
que me fustiga


reconheço
a delicia de sentir
o apelo dos sentidos
e me castigo


estremeço
o amor que tenho no poema
sonha contra o vento
arde


Rio, abril de 2012.  





AMOR ETERNO



[de um esboço de 2006, Roma]
sei porque te quero
vem junto comigo
para conhecer o desejo


deixa passar as águas
ficaremos a nos olhar cristalinos
luminosos de ternura


se vivo onde nasce o sol estou contigo
tranquilamente pensando em um novo dia
e o mar imenso para navegarmos
juntos eu te queria


somos quem deixa correr as águas 
inocentes diante das margens frias
levando apenas instantes sem razão
nós ficaremos


é do amor que falo
do nascer do sol sem o poente
que duradouro será o nosso dia


Rio, abril de 2012.





PALAVRAS [bis]



de onde vem o canto
entoado cada dia


pedras não flutuam
nem a brisa leva
transformar o canto em pedra?



palavras 
como se a brisa soprasse
não regressam





Rio, abril de 2012.




quinta-feira, 19 de abril de 2012

PALAVRAS



ninguém sabe porque escreve
escreve
mas alguém deve saber
há tantos críticos literários

eu não sei
escrevo
às seis horas da manhã
depois da noite azul
quase negra
insone e portátil
para depois de amanhã

hoje já foi
e tudo vai sem perceber o caminho
nem a direção

vou indo
acompanhando as palavras
nem sei onde chegam
mas chegarão

basta escrever para dar sentido
e fazer a vida leve
onde pesa o compromisso

ao menos se escrevo lembrarei
que escrevi no dia dezenove de abril
de dois mil e doze

palavras que me surpreendem
modernas para alguém tão antigo
na falta de brilho de uma vida opaca
quase a chegar ao fim

falaria de amor
se não provocasse a desconfiança
de que amei muito 
duas vezes
três
muitas vezes
separadas ou simultaneamente


o amor não se conta
até porque revela-se diferente
a cada caso
enquanto passam as águas do rio


mas a juventude que ainda  vem da fonte
límpida brilha  quando me esqueço
a idade e viro pedra
imóvel
eternamente jovem


tudo são palavras que se afogam em poemas
em busca da forma
da ideia
ao rumor das asas da borboleta 

só palavras
neutras
nem ciúme nem inveja
nem raiva nem ódio
amor talvez
sentimentos desconcertantes para quem se descobriu simples
um homem
passado tanto tempo

sexo movimenta demais
o esforço encanta
mas cansa
quê diria um menino na força de seus anos
velho 
que não sou

colho o dia como flor que me apascenta
aprendo o perfume
apreendo o sentido
tranquilamente sabendo que estou aqui
agora 

palavras perdidas
emaciadas arrependidas
do que fiz ou deixei de fazer
da criança que fui ao adulto que não sou

não sou triste
nunca fui
mas hoje em dia diriam-me bipolar
o que muito me intrigou no laudo médico
que me descreveu 
psicótico-maníaco-depressivo


nem fui nem me senti
 entre humores
vivi alegrias

deixa estar
palavras rápidas quase brisas
perdidas no vendaval da vida
deixa estar
este é o momento em que perdi a virgindade
para entender
que bom mesmo é viver

Rio, abril de 2012.



quarta-feira, 18 de abril de 2012

APÓS MOZART [transcrição automática]



* * *a música soa sem dizer* *palavras* *cresce entretanto no tudo que resume* *e vem a nós suave distante apaixonada* *trazendo-nos o claro e o escuro* *o doce e o amargo* *o "staccato" a melodia * *a sinfonia * *e o acorde final da eternidade* * * *


Rio, abril de 2012.* * * * *


[a forma automática de transcrever meu texto é interessante como resultado]



APÓS MOZART



a música soa sem dizer
palavras
cresce entretanto no tudo que resume
e vem a nós suave distante apaixonada
trazendo-nos o claro e o escuro
o doce e o amargo
o "staccato" a melodia 
a sinfonia 
e o acorde final da eternidade


Rio, abril de 2012.