é curioso o tempo
que não se conhece por antecipação
mas quando chega
revela-nos em um átimo
se atentos
sua essência passageira
assim a sensação de ser feliz
que é um instante roubado
da realidade
Rio, maio de 2012.
ah este outono no Rio
de temperaturas amenas
céu azul praias imensas
tudo tão claro
tudo tão feliz
nos ventos que trazem frescos
o silêncio do mar
quem quer saberá sentir
esse prazer de viver
o que mais amar?
Rio, maio de 2012.
setenta anos passados entendi
que não havia entendimento
consciente de que vivi
um tempo de sentimento
ri chorei muitas vezes sofri
hoje procuro o essencial
mas na contagem geral
ganhei mais do que perdi
mas a vida é isso mesmo
nada que machuque tanto
caminhando passos a esmo
para chegar ao fim no entanto
conformismo diria um
cinismo outro calaria
razão nenhum tem
viver é quase sempre alegria
Rio, maio de 2012.
colhendo ventos passei parte da vida
não vieram tempestades
mas nada guardei do que colhi
e pior
escaparam pelos fundos
a zunir
comprei um cesto para água
busquei água pura da fonte
cuidadosamente
mas o cesto permaneceu vazio
criteriosamente
assim ao aproximar-se o fim
deixo em testamento
um saco de colher vento e um cesto
com a condição
de que meus herdeiros
lembrem-se de mim
Rio, maio de 2012.
fui ler Drummond e aprendi que gula rima com medula
espinhal óssea supra-renal
mas não entendi onde entra a gula
talvez como excessiva fome essencial
ou será o gosto especial com iguarias
na dúvida voltei a formas livres
de poetar em versos sem rimar
esgrimindo palavras
entre conceitos sabidamente líricos
como dor e amor
tristeza e beleza
ideias e prosopopeias
mas ironia
de repente percebi que rimava
[aqui atrás]
repus a máscara
sério sorri
Rio, maio de 2012.
perplexo não digo qualquer palavra
digo entretanto uma palavra qualquer
que me sai dos lábios
e se escreve em letras
surpreendendo-me na liberdade
que não tenho livre
qualquer palavra não me desperta
uma palavra qualquer instiga-me
porque foi dita
e foi escrita
como numa fuga sem toccata antes
essa palavra é ilusória
parece que me pertence
mas está no ar
não a leiam sem compromisso
que elas comprometem
muito menos quem a disse
do que o leitor que a recebeu
entendam-na se puderem
o que não posso eu
Rio, maio de 2012.
muitas vezes dobrado no finito
não me dobrarei no infinito
um são meses dias horas
outro minha natureza
essa é minha razão
nenhuma desilusão
assim fui
e contudo sou o que me tornei
a caminho de onde não sei
entendo que não terminarei
Rio, maio de 2012.