sábado, 19 de janeiro de 2013

MEMÓRIA



de onde parto nunca sei
mas me é claro que da palavra iniciei
a caminhada impronunciável
de frases que não se adivinham
cheias da esperança nevoenta 
de que falou o Poeta

sem nomeá-lo pareceria um cochilo
da lembrança sonolenta
de quem pensa e não fala
de sua imensa influência
no que sou e sinto
da palavra à frase no poema

labirinto entre sonhos e olvido
a palavra me conduz
palavra por palavra
ao poema que se abre em poemas
como ondas em busca de uma praia
que lhe prometa amante e coração

assim  vinculo-me a Pessoa
ao inquebrantável Borges
a tantos e tão ricos bardos pensadores
retidos na pobreza da memória 


Rio, janeiro de 2013



quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

FALAR DE MIM



falar de mim
talvez um poeta
possa pensar sem o dizer

ah sou um caracol
enredado na alma de um pássaro sem asas
impaciente diante da palavra

não sou poeta
canto sem sentir
penso sem cantar
peco por mentir

é tão breve tudo
tenho os olhos de um marinheiro
por uma escotilha o céu
ondeando incerto o mar
para limitadamente ver o cais ao atracar

tenho consciência disso
canto o que vejo
digo o que penso
finjo quando não minto

a verdade seria uma injúria
não a quero
prefiro viver
  

Rio, janeiro de 2013



O INSTANTE



o tempo jamais será recuperado
mas nada importa se já foi
sou o instante
o futuro não é meu

Rio, janeiro de 2013


REFLEXÕES RÁPIDAS



sou o que pareço
o que fui conheço

não sou como as estrelas que se deixam mirar
sou menor sou muito menos
escondo-me do olhar

ser basta para o que sou
não quero a verdade
quero a vida

Rio, janeiro de 2013


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

RAZÃO



jovem instalei-me em minha cabeça
sem tristeza
nunca senti com o coração

senti o pensamento

de ser homem e o fui

mas a beleza 

como a percebestes
perguntar-me-ão

como um raciocínio

sem traço de união

encantei-me com o mar...
fui ao mar
admirei o sol
expus-me ao sol
excluí sempre o coração

mas para amar...

amei

amei a vida amei a aurora

amei a praia amei o sol
amei o mundo e sua imperfeição
o nascer de tudo
o mistério e a questão
amei rios e rosas
a música a poesia e a prosa
a neve fria 
maria 
a liberdade
o céu 
o espaço e o poente
presentes e ausentes
fascinante tudo 
amei sem coração


Rio, janeiro de 2013




domingo, 13 de janeiro de 2013

UNFINISHED MOMENT



sopra o vento frio 
distante longo e dolente
e me abandona solitário 
a me inspirar o verso
reflexo fugaz do que há no sentimento

sinto difuso o mundo
entre chamas
uma loucura sã
da angústia de compreender
depois das trevas e do vento 

não me sinto aqui
lentas horas 
isolado e absurdo
cinza
na tarde ensimesmada
a perceber 
tristeza inteira de um instante

à distância  o pensamento reduz 
uma forma de desdém
a descerrar sonhos
para tecer
um segundo plano de outono

olhos cerrados ouço o vento
que não quer parar
no escurecer
ouço o som que se alonga
atrás de sombras entre frestas
enquanto se esconde a lua

faz-se então a angústia
ansiosa e inquieta

Rio, janeiro de 2013.






ANGÚSTIA DA PALAVRA [III]

vejo-a logo ali
a um átimo de tempo
entre mim e ela
só a vertigem
dela própria
solta
livre
ígnea
ao vento
voa a palavra
e não a aprisiono
ouço-lhe distante o eco
poeeetá poeta poet poe pooo

Rio, janeiro de 2013