pode ser que a Criação seja um invento humano
de onde um Criador um super Ser
mas incriado
quero crer mas é difícil entender
talvez baste imaginar
como imagino
que mais além nada restará
exceto a esperança que entretenho
de que a Verdade seja vera
e ao passar a linha imaginária
encontre vida
uma outra vida
(e o que mais)
mais não sei exceto
que o tempo criatura humana
dir-me-á
dirá?
Rio, janeiro de 2013.
sombra sutil de nuvens ondulando em busca do vazio
sombrear ligeiro soprado pelo vento
murmúrio do silêncio na distância do abismo
muitas vezes a solidão
muitas a morte
Rio, janeiro de 2013
de onde parto nunca sei
mas me é claro que da palavra iniciei
a caminhada impronunciável
de frases que não se adivinham
cheias da esperança nevoenta
de que falou o Poeta
sem nomeá-lo pareceria um cochilo
da lembrança sonolenta
de quem pensa e não fala
de sua imensa influência
no que sou e sinto
da palavra à frase no poema
labirinto entre sonhos e olvido
a palavra me conduz
palavra por palavra
ao poema que se abre em poemas
como ondas em busca de uma praia
que lhe prometa amante e coração
assim vinculo-me a Pessoa
ao inquebrantável Borges
a tantos e tão ricos bardos pensadores
retidos na pobreza da memória
Rio, janeiro de 2013
falar de mim
talvez um poeta
possa pensar sem o dizer
ah sou um caracol
enredado na alma de um pássaro sem asas
impaciente diante da palavra
não sou poeta
canto sem sentir
penso sem cantar
peco por mentir
é tão breve tudo
tenho os olhos de um marinheiro
por uma escotilha o céu
ondeando incerto o mar
para limitadamente ver o cais ao atracar
tenho consciência disso
canto o que vejo
digo o que penso
finjo quando não minto
a verdade seria uma injúria
não a quero
prefiro viver
Rio, janeiro de 2013
o tempo jamais será recuperado
mas nada importa se já foi
sou o instante
o futuro não é meu
Rio, janeiro de 2013
sou o que pareço
o que fui conheço
não sou como as estrelas que se deixam mirar
sou menor sou muito menos
escondo-me do olhar
ser basta para o que sou
não quero a verdade
quero a vida
Rio, janeiro de 2013
jovem instalei-me em minha cabeça
sem tristeza
nunca senti com o coração
senti o pensamento
de ser homem e o fui
mas a beleza
como a percebestes
perguntar-me-ão
como um raciocínio
sem traço de união
encantei-me com o mar...
fui ao mar
admirei o sol
expus-me ao sol
excluí sempre o coração
mas para amar...
amei
amei a vida amei a aurora
amei a praia amei o sol
amei o mundo e sua imperfeição
o nascer de tudo
o mistério e a questão
amei rios e rosas
a música a poesia e a prosa
a neve fria
maria
a liberdade
o céu
o espaço e o poente
presentes e ausentes
fascinante tudo
amei sem coração
Rio, janeiro de 2013