sábado, 17 de agosto de 2013

A IMPERFEITA VIDA



encerro a vida como quem não começou
apaixonado e carente desejando mais
nunca saberei o que fui
tal como não sei o que tentei
tudo me parece igual no final

nada ou quase nada resta a dizer
exceto que eu amo
exceto que eu quero
exceto o pensamento pronto
para o que vier

o passado é galardão em caixa fechada
ressalto nele a experiência
que agora não me serve de nada

honrarias trabalho recordações condenadas 
livros não lidos escritos não terminados
romance de interior catalogado
célebres ou perdidos na desmemória
restam alegrias embaçadas 
no tempo que não retorna

o presente é fugidio
cada dia na intensidade adequada
para não perder o fio
da meada que se enrola
passa e desaparece 
no momento mesmo que acontece

é imperfeita a vida
salvo no sopro em que ligeira passa
salvo no instante iluminado em que se ama
a própria vida
salvo no vigoroso teste da esperança
salvo
salvo em tantos momentos
de que desisto porque desaprendi de viver


Rio, agosto de 2013.



quinta-feira, 15 de agosto de 2013

TEMPO DE PARTIR



o reboco conservado

cobre a pedra bem cravada
paredes retas 
desgastadas mas tratadas

a alvenaria antiga resiste 

chuva sol vento geada
é dentro que a vida cessa
no interior apodrecido

caos de passado

fios e dutos despelados
entranhas como é por dentro 
reviradas
a vida quase não fala


Rio, agosto de 2013.


DESNUDANDO O MUNDO



tudo o que nos dá o mundo
é o que nunca terei
cumpre-se aqui o fado
cujo fim não saberei
deslembro o que passou
apenas sei que passou

imensa é a hora
breve o tempo
que nos desabraça
em sua passagem 
como brisa como vento
gradual
nesta existência dilatada
enquanto dura esta matéria gasta

alheia a mim a vida é uma alvenaria
estranha e fugidia
de paredes caiadas
onde cabe só o pensamento
do sono perfeito a sobrevir 
desnudo sedutor e frio
embalsamado


Rio, agosto de 2013.



terça-feira, 13 de agosto de 2013

TUDO E NADA



por vezes o mar escuro* noite a dentro
é abismo onde me afoga a solidão
do fim de existir
busco a razão de chegar onde cheguei
nesta planície quando pouco resta a desvendar
exceto o mistério de tudo
e a validade do nada

é muito pouco para continuar a viver


*diante de minha janela

Rio, agosto de 2013



PASSAR PASSANDO



o rio escorrega pelas pedras
leva o segredo bem guardado
de passar rondando poços
lento quase devagar

por quê apressar
se a planície é rasa
e o homem nem presta atenção
as águas sabem onde vão

Rio, agosto de 2013



segunda-feira, 5 de agosto de 2013

ANA LUIZA (a luz do luar)

para Ana Luiza 
no seu aniversário de sete anos

você trespassa minha vida
como o luar que alumia
a varanda de meus tempos
por onde entrou o seu amor

vi-a nascer enquanto renascia
por seus dons e encantos 
a beleza
de ser primeira a inspirar meus versos

com você tomei as primeiras lições
de ser avô


Beijarei você (ternamente) no seu dia (12.08)

Rio, agosto de 2013




 

domingo, 4 de agosto de 2013

FUGA



por essas e outras coisas
tudo quando termina
tira um pouco do senso
de quando começou

tenho a memória do ritmo
e do som dessa água
toda a agonia do  rio
uma só vez a passar

mais além do outro lado 
à distância que está
tão perto tão longe
o inútil inquietar

sinto a tensão 
da energia e da sombra
sob a terra macia  
onde não há desafio

esse é caráter da fuga
sem resposta na curva de ida
essa não é outra coisa
mas ela mesma sentida


Rio, agosto de 2013