quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

O MAR E EU



há tantas vidas no mar
não apenas ondas vagas
talvez aí se encontre o início de tudo
talvez de lá venha o fim 
interminável parece a superfície do mar
vejo-o todo dia é meu refúgio
vem com suas ondas marulhar à beira da praia
ouço-as atentamente
trazem mensagens que me alimentam o dia pela manhã
deixam ideias que povoam meus sonhos à noite
e tudo cria ou destrói
não há só ondas no mar

Rio, janeiro de 2014.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

FENIX



há a memória universal
talvez automaticamente gravada no gene de cada pedra
lembranças nós compartilhamos
e tendem a ser fatos comuns
mas fortes

estou vivo ainda e tenho lembranças
boas más alegres e tristes
e quando as repinto
nem sempre encontro a cor exata
variável como o azul das asas de uma borboleta

conheci afetos que hoje permanecem como protegidos
atrás das folhas caducas de outono
sobreviverão ao frio inverno 

agora sob o sol escaldante de verão
acompanho a fidelidade do girasol em busca do calor

o mar oceano é minha realidade e meu sonho
namoro-o em sua aparente placidez
atrás de cada ondulação

os dias de meu passado formam cristas grisalhas
que se derramam preguiçosamente sobre a areia

mas descobri as formas do presente
nem diferentes são de meu passado
repetem sensações que são novos afetos

esperança de novos caminhos para distintas esperanças
e minha trilha nova inicialmente reticente
ganha vida

se as dedicações de um homem velho são formas velhas renovadas
repetindo vazias fórmulas passadas nem sei
mas importa pouco saber 
sinto vida nelas

e são como se eu tivesse chegado para descobrí-las então  
como um renascer

Rio, janeiro de 2014.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

AMANHÃ



sou feliz hoje porque mudei
tenho a referência do passado
que me aponta o que já quis
ou o que fui

deixei os pequenos fatos
ressaltei os grandes
que nunca foram pequenos ou grandes
mas desprezíveis ou sensíveis

minha roupa ocupa guarda-roupas
lembro-me quando as usei
mas pessoas desapareceram atrás de uma gravata
e coisas sobreviveram
feias ou belas mas identificáveis

entendi que os laços agora têm significado
quando bem dados
trazendo a idéia do real
ao irreal de ter estado

não guardo a memória de mim
o tempo desgastou-me
mas onde passei perpétuos encontrei jardins
e canteiros de rosas
seu perfume traz-me amanhã

Rio, janeiro de 2014.



segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

IMPROVISO/EM CONSTRUÇÃO



sonhei sonhos que perdi

porque dormi
não me lembro entretanto
dos que abandonei desperto
consciente ou inadvertidamente

olho o passado inconfidente

para descontar amigos
 sem antes nem mesmo contá-los
e o número de milhas percorridas
para amealhá-los

o tempo despediu-os distantes

nem atores nem autores resistiram à erma estrada

é curioso pelo menos que no somatório de sonhos

prevaleçam nestes tempos finais os que não são meus

pergunto-me às vezes se cheguei até aqui para isolar-me

de tudo quanto esqueci do tempo em que dormi

nem amigos

outros soprados pelos ventos 
interceptaram meus caminhos
e eu imediatamente não os percebi

nesses incontáveis momentos de decisões 

saí de mim...no entanto
para adotar fado que não meu
curiosamente somado a quem sou eu

se é sonho substitui perdidos

está comigo e viverá sem mim
  
Rio, janeiro de 2014.

domingo, 19 de janeiro de 2014

SOLIDÃO



risca a escuridão raio fulgurante
arranha o mar reduz a noite rasga o horizonte
ribombam trovões tonitroantes
irrompe o medo

o planeta circunavega o sol
estrela dominante
o horizonte trepidante
na tempestade relembra deuses irascíveis

à beira-mar a pouco e pouco o mar acalma a ira
ainda intimidada à luz da Lua 
fica apenas negra a solidão

Rio, janeiro de 2014.





VIAGEM



o horizonte incandesce com a tempestade distante
incendeia por instantes seus espaços
transparecendo sombras inesperadas
chalupa e ilhas e medo do desconhecido

raios decompõem a unidade
quebrando a linha fina da maré

zune a quebra do vento em direções suspeitas
acentuando o sopro de um jato
levando a matéria dos meus sonhos a erma estrada
desconhecidos

Rio, janeiro de 2014.

TEMPESTADE



raios riscam o céu em direção ao mar
o escuro brilha a energia dourada
revelando nítida a linha do horizonte distante
e deixa nuas sombras das ilhas próximas
houvesse uma realidade ilusória
e a escuridão aberta em ouro e branco a desmascararia

é impossível abandonar a certeza da energia cósmica criadora
essa é matéria dos deuses

Rio, janeiro de 2014.