"Porém, pera cantar de vosso gesto a composição alta e milagrosa, aqui falta saber, engenho e arte." Luís de Camões ... assim encontrareis aqui palavras magoadas a tornar o fogo frio e dar descanso a minha alma condenada ...
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
SAUDADE
a casa em que vivi está lá
com suas janelas vermelhas
e a primavera florida
cercando-lhe a varanda
encantando quem a vê
há lembranças que me enchem a vida
como a pracinha defronte
e sua rua larga
distanciada por alas de "flamboyants"
esconder-se não havia onde
mas brincávamos de pique-esconde
a casa (creio) ainda está lá
e eu setenta e três anos a sonhar
a cada dia mais volto p'ra lá
Rio. fevereiro de 2014.
domingo, 16 de fevereiro de 2014
TRISTEZA E ALEGRIA
não sou alegre nem triste
diz a poeta com razão
tudo é coração
tristeza não vem de fora
alegria não se alcança com a mão
nem morrer que é continuar se consegue no feirão
é um engano
ledo engano
tomar a tristeza por mão
tanto quanto encontrar alegria no chão
alegria e tristeza são coisas do coração
Rio, fevereiro de 2014
sábado, 15 de fevereiro de 2014
EMOÇÃO
a linha do horizonte
é fímbria entre mar e céu
azul com azul em tons
que um ao outro complementam
sopra a brisa
da areia fresca [é noite]
úmida da última onda
dispenso-me a agitação
e deixo falar o coração
e ouço-o
sozinho sou emoção
fora de mim nada passa
sou apenas a emoção
Rio, fevereiro de 2014
O MAR E A PEDRA COMIGO
sentei-me na areia fresca da noite
e deixei-me sonhar
era quente o ar
constelados os céus
o silêncio quebrado
pelo marulhar
pensamentos perdem-se no seu vem-e-vai
como a onda do mar
que se derrama inteira
sonda
e retira-se descabelada
sem nem mesmo decidir
é verão aqui
quente sobre a pedra
fixada há milhões de anos
e eu
episodicamente a namoro
por um átimo em sua longa vida
penso e deixo de pensar
entre o marulhar e o silêncio
capto o silêncio e deixo ao mar a mensagem de amar
Rio, fevereiro de 2014
ONDA
derrama a onda espuma pela praia
penúltimo esforço de entender-se
antes de morrer ali frágil e desgastada
penso em algum sentido
que não capto
do deixar de ondear o prata da Lua
o céu constelado
vestida simples de branco cabeleiras rotas
e secar consumida pela areia
onde restam poros
e pés gravados no caminho incerto
de quem passa
Rio, fevereiro de 2014
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
VENTO
sopra por sobre o mar
o vento
vento
ouço-o zunindo às noites
sinto-o presente desde o sudoeste
vento
perde-se sobre as ondas
deixando rastro e maresia
venta
lambe meus ouvidos
arrepia-me
violento
há sons diversos no vento
que me escapam
salvo a música
que me dá alento
venta
o vento à distância
ainda sopra em pensamento
atrás do sentimento
venta
Rio, fevereiro de 2014
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
A PEDRA E EU
penso
quando é dia
sinto
quando é ficção
uma pedra o que será
pergunto
entre as duas percepções
mas enfim a diferença
se penso e a pedra não
está entre ser eu e não pedra
dura milênios a pedra
em silêncio
não duro tenho pena
vou
Rio, fevereiro de 2014.
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