"Porém, pera cantar de vosso gesto a composição alta e milagrosa, aqui falta saber, engenho e arte." Luís de Camões ... assim encontrareis aqui palavras magoadas a tornar o fogo frio e dar descanso a minha alma condenada ...
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
MAZELAS
...mazelas...não arrisco falar delas
físicas morais intelectuais e até mesmo virtuais
despencam torrenciais
desprendem-se ao mínimo rumor
de um pálido suspiro
de terror
é escuro o brilho do silêncio
tua ausência suporta mal a fidelidade
que deves ao gênio que escondes em rimas digitais
a língua desmembra-se
divide-se entre o gôzo e o desejo
confunde o antes e o depois
e lambe selos num ritual ancestral
languidamente
julguei que nada havia a dizer do desencaixe
com receio do vazio de teu eu longe do meu
Rio, fevereiro de 2009
O TEMPO
que inútil seria suprimir o tempo
sem eliminar a angústia e todo sofrimento
congelar o fel em nada muda a substância
o vinagre está em nós
e por isso escrevo supero o tempo passo e deixo a borra
se o tempo não existe
eu existo
por que não aparecer
se tanto quero viver?
Rio, fevereiro de 2009
terça-feira, 25 de novembro de 2008
SELVA
nem antes nem depois
tudo aconteceu
e nada mudou
exceto tudo
em crise de sobrevivência
o repentino encanto do real
no sonho de reviver
a alucinante selva escura
Miami, novembro de 2008.
domingo, 26 de outubro de 2008
ADEUS LONDRES
o inverno ronda Londres
vem do mar molha a terra
com a umidade cega
que se desfaz
nas ruas de noites silenciosas
dessa gente retraída
em palavras sem palavras
debaixo de janelas fechadas
à sombra de lâmpadas amarelas
sem um grito
sufocados
nenhum gesto
luz opaca
claridade repentina
de um farol indistinto
no escuro florescem
sem vida as manhãs
não demoram
duram horas
vem o cinza em pranto
só para que passe
um outro dia
que se cala
Londres adeus! outubro de 2008.
sábado, 25 de outubro de 2008
VERDADE
ergui minha casa sobre o sonho
e protegi-me de sol e chuva
sob a emoção
na fonte
por onde sibila o vento
e sopra o que lhe convém
sonhei que navegava
ondas de percepção
de onde estive pressentia
o apelo da manhã
sob tênue sol
que me aquecia
se eu soubesse então a reverência
do sonho submerso no real
não viveria
nem sobreviver conseguiria
frágil que fosse
à verdade que me consome
Londres, outubro de 2008.
SENSAÇÕES TARDIAS
lábios trêmulos
ausências mansas
muita gente sombra
o silêncio emocional
esconde a alegria
que partiu
neste intervalo
tudo pouco importa
nem desamor
a véspera de não ser
é frágil
é lembrança e é passado
tudo pára
quem importa já não vê
o visível sentido do que tudo se tornou
resta pouco
corro atrás do vento
Londres, outubro de 2008
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