terça-feira, 4 de agosto de 2009

FADO







sei que virás traiçoeira
alheia impessoal
em meio à bruma
cinza e soturna

não me causas náuseas
tudo será natural e calmo
no caminhar que me reservas
à terra de ninguém

tudo sabes do meu fado
mas não perguntarei
disciplinado
seguirei

Rio, julho de 2009



quarta-feira, 29 de julho de 2009

DÚVIDA






no caminho inverso
nem vejo
nem ouço
e angustiadamente
calo
nos meus versos

inútil verdade do que sou
escrevo
sobre o que não sei
se o que vejo não é

Rio, julho de 2009


quinta-feira, 23 de julho de 2009

ANGÚSTIA POÉTICA







[uma teoria do isolamento]


desperto do sonho contemplo a imensidão
o infinito liberto no ato de pensar


quietude

que o pensamento não alcança
e a palavra estrangula

diálogo sem som
o pensamento habita o limiar
intangível
no surreal do sonho
onde hesita angustiada a metáfora

a palavra não me basta

Rio, julho de 2009



...numquam minus solum esse
quam cum solus esset
[Catão, por Cícero]

A ILUSÃO DO REAL





aparência ou percepção sensorial
é enganoso o universo do real

a alma só
contempla a verdade invisível
do ideal
por detrás das coisas
atrás do detrás
intangível

*

escrevo para enganar-me
submetido às ciências
e à lógica implacável
o poema é meu delírio
nunca será metafísica
mas pobremente física

organizo em palavras
o que não lido
com a matemática

neste submundo
estou só comigo
mas não tão só
que estou comigo


Rio, julho de 2009

quarta-feira, 22 de julho de 2009

IMPLACÁVEL TEMPO






aqui me tens diz o tempo
implacável mortal e nu
o ritmo é tudo

a inquieta borboleta
aprisionada
busca forças para esvoaçar

e o tempo atento
fustiga a vida
para acabar onde começou


Rio, julho de 2009

terça-feira, 21 de julho de 2009

POESIA TRANSFORMADORA DO MUNDO

[de novo, a propósito de Nydia Bonetti em seu Blog - http://nydiabonetti.blogspot.com/]


o mundo meu
não é outro
senão eu
se a poesia transforma
a mim reforma
e toma forma
nos olhos que tenho pra ver
nas linhas que devo ler
do mundo que não é meu


da "Lírica" "[...]um gosto que hoje se alcança,/amanhã já o não vejo;/assi nos traz a mudança/de esperança em esperança, e de desejo em desejo [...]"
"[...] em vida tão escassa/que esperança será forte?/Fraqueza da humana sorte, que, quanto da vida passa/está receitando a morte!"

em continuação já o dizia

"Sôbolos rios que vão/por Babilônia, me achei, onde sentado chorei/as lembranças de Sião/e quanto nela passei./[ ...]"
"Ali, lembranças contentes/ n'alma se representaram,/e minhas cousas ausentes/se fizeram tão presentes/como se nunca passaram.//

Nada se copia, tudo se recria...

Rio, julho de 2009

AINDA O ABISMO

[para Nydia Bonetti]



asas
que falar desse olhar
por sobre a pedra
luz
onde o ar se rarefaz


música


dê meu nome ao vento vivo
que uiva
onde o abismo se desfaz...

21 de Julho de 2009