segunda-feira, 26 de setembro de 2011

UM MUSEU





a porta de Kafka nem abriu
e o inseto passou
sem chave foi ver outro lado
e tudo que viu detestou


nem amor viu
horrendo ninguém o quis


'eu te amo' 
não ouviu
quem pode amar um inseto
ainda que vida
na forma de inseto


viu o lobishomem
o homem mesmo
era o mundo
de frente costas e perfil


é tempo parece 
de partir deste museu


Rio, setembro de 2011.







ERA ISSO?



nem é curta a vida
nem longa pode ser
pois ser humano cansa 
até mesmo de viver


a China fica distante
acho isso muito bem
tem lá tanta gente
e trilhões pra especular


esse imenso poder
muda minha cartilha  
pode mover a moeda
pra ganhar guerra comercial


aqui a Copa do Mundo
toma espaço nos jornais
diz que o Maracanã
nem pronto estará no final


o desastre anunciado é formal
é grotesco triste talvez
no país do futebol


a gente virou egoísta
cada um cuida do seu
nem se importa com o outro
que apenas sobreviveu


no cenário industrial
é melancólico
ver pessoas discutindo
o ovo de botar em pé


e o ambiente cortado pelo meio
meio está meio ficará


cansa a vida cansa de tanto viver
nada restará nem mesmo o nome
do que já fiz ou farei
sou sobrevivente de não me saber explicar


Era isso
chego mesmo perto do fim
e nem liberdade terei
paranoico
vigiado até o fim


'não estou mais na idade
de sofrer por essas coisas...' [1]


pergunto
há idade de sofrer 
ou é esse o nome de viver


era isso?

Rio, setembro de 2010.


[1] Carlos Drummond de Andrade


O TEMPO



meu tempo hoje é qualquer tempo
tempo de escrever
tempo de ler 
tempo de pesquisar
tempo de meditar
até tempo de amar


o tempo que me enriquece
a cada dia entristece
porque me afaga
na despedida
de quem se vai ao passar


todo tempo é tempo 
tempo de bem viver
tempo de reconhecer
que curto é o meu tempo
nesse tempo de viver


o tempo não me resta
o tempo foge 
afasta-se de mim
desde a hora de nascer
até chegar ao fim
na hora de morrer


se o tempo passa
eu fico
e não me mortifico
porque o tempo tem de passar
e eu o terei na eternidade de amar


Rio, setembro de 2011.



domingo, 25 de setembro de 2011

O AMOR





‎"A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade."
Carlos Drummond de Andrade 

e tento seguir o poeta, escrevendo:

...um dia descobrimos que temos tudo e nem fizemos por recebê-lo, mas tivemos amor dos pais, da família, da mulher companheira, da compreensão afetuosa de amigos, da educação para a vida. Na verdade não sofremos, pois o amor veio como dádiva. Mais que receber o amor é dom, é entrega no momento preciso. Assim, o amor  é a atenção, é o gesto, é a capacidade de não o matar por egoismo...

Rio, setembro de 2011



quarta-feira, 21 de setembro de 2011

ERA SÓ ISSO?





viver tanto parece tão pouco
nem comecei a sentir o gosto do amanhã
quando ontem está tão próximo


meus 20 anos ainda presentes
foram felizes


recuso-me a partir
recusarei todas as tentações
para esperar o que acontecerá
no futuro que não me seria dado viver


nunca supus amar a vida tanto
descobrir presenças novas 
que ressuscitam prazeres jovens
e renovam percepções


Ana Luiza, Alice, Pedrinho 
Lucas que está por vir
viverão sem mim...


por eles fico
mas sei que pela vida passo
enquanto resisto


viver é muito bom
mas ao chegar a hoje
vejo 


e era só isso...


Rio, setembro de 2011



quinta-feira, 1 de setembro de 2011

NYDIA FAZ ANOS [E POEMAS]







para Nydia que faz anos 
de novo


finjo eu 
fingimos Nydia 
todos neste mesmo lugar 
"onde se pensa ou sente"


não podemos calar
o poema é o que nos resta
neste estranho ofício  teu e meu


no setembro ou no dezembro
são sílabas e letras
fingindo o que fingimos ser


desfiando idéias
por vezes pensamentos
outras sentimentos
o enigma esconde o poema
entre a bruma e o sonho
de um momento 


e voa


meu é o momento
à sombra do pássaro 
que dele é o espaço
o meu é fingimento


Rio, setembro de 2011






NYDIA FAZ ANOS





Para Nydia


finge a vida de infinita
e esvai-se num instante
arde coração 
setembro não é mais nem menos
que o tempo contato no finito
e o que te resta 
Nydia
sílabas e versos
são marcas
de um coração desperto


Rio, setembro de 2011.