"Porém, pera cantar de vosso gesto a composição alta e milagrosa, aqui falta saber, engenho e arte." Luís de Camões ... assim encontrareis aqui palavras magoadas a tornar o fogo frio e dar descanso a minha alma condenada ...
sábado, 11 de fevereiro de 2012
O SEGREDO
que sabemos do que se esconde atrás das nuvens
onde o tempo passeia em fuga ligeira
sei que no éter dormem os sonhos
que a noite traz como desejos quase sempre em segredo
repetidos como ecos de pensamentos abstratos
sem palavras
entre beijos e lágrimas
pode ser música
que nos chega pelo sentimento do mundo
como gotas de chuva
quando a nuvem pesa e nos diz
estou aqui
choro
imagino-me dobrando ali a esquina inexistente
num céu do outro mundo
em cor azul da liberdade de viver
o desejo conhecido
e o segredo
indecifrável de amar
Rio, fevereiro de 2012.
A CASA DA SAUDADE
pedra sobre pedra construirei
um dia
a casa da saudade
o projeto existe e está em curso
pois conheço seu futuro
que às vezes noturno me aparece
conheço cada pedra e junta
coladas no sentimento impossível
de um amor eterno
a casa é sólida
ilusoriamente plantada sobre a dúvida
perversamente voltada para a noite
nela vivo paixão que adere à pedra
para assegurar-se de que é possível
o amor que derrota
passageiramente
a solidão
às vezes perco o senso da saudade
para viver a esperança
de que um dia uma noite eternamente
esse amor perdure
e eu derrube os muros que me cercam
mas a ilusão é menor que a realidade
e a casa sobe
inapelavelmente
tem telhados e porta
janelas que se fecharão
e lá trancada comigo chorará
saudade
Rio. fevereiro de 2012.
ILUSÃO DE JUVENTUDE
vivo a ilusão da juventude retomada
inútil sensação passageira
do tempo irreprimível
quantas vezes avanço para viver amanhã
as percepções de ontem
reconduzido ao tempo perdido
tantas arrependo-me por amar
equivocadamente
intenso como o amor de ontem
muitas vezes sempre indeciso
noto olhos espantados
de quem não percebe o sonho
todos os dias entretanto a solidão
dissonante do amor
diferente de amar
meu caminho é meu caminho
entre pedras e aclives
despenco a prumo
Rio de Janeiro, fevereiro de 2012
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
AH SE EU TE PEGO
ah se eu te pego
se eu pudesse perenizar o que não tenho
e o desejo ultrapassasse a realidade
ah que prazer eu teria aqui
ah se eu te pego
quem sou seria outro
a juventude voltaria ao corpo
e tão cedo não me veriam morto
ah se eu te pego
sei que ficaria louco
tendo-te em meus braços
de gritar de prazer
dormiria rouco
ah se eu te pego
ah se te pego
o sonho que terei sonhado
tornar-se-ia realidade
para viver sem pensar na idade
ah se eu te pego
[e mudo o tempo não emudeço]
quem sabe
se te pego
serei feliz aqui...
Rio, fevereiro de 2012.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
FOI OUTRO DIA
outro dia apenas dias poucos passados
ouvi quase em segredo
tua ansiedade
tu chamastes o desconhecido para nada
para o fortuito de um encontro sem alma
ouvi tua chamada sutil
desencontrada
quase infantil
para um nada que se perderia no tempo
de teu pensamento sem memória
e o corpo frio
pouco tempo faz daquele momento
que tudo transformou
mas sou eu a lembrar aquele átimo
e dele construir o sonho
basta fechar os olhos
Rio, fevereiro de 2012.
OUTONO INVERNO
dias de lembrança são o sonho retomado
um retorno ao passado
alento para um intemporal futuro
esse vale da memória
acelera o passo na escalada
da colina que se depara
esperamos
inevitável e suave
embora o outono pareça decadência
nele aprendemos a preparar o inverno
Rio, janeiro de 2012.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
ENTRE A MANHÃ E O POENTE
para chegar ao futuro
o passado tem de passar
enquanto teimosa a lembrança
quer-nos fazer recuar
deixa deixa o passado
e tudo que nele condena
escolhe o bem
que cuidadosamente viveste
e o aproxima de ti
vivas inteiro o que és
entre a manhã que promete
e o poente que te faz descansar
trabalha de dia ama a noite
se te queres entender e ser claro
o mal que passou são amarras
que não te deixam avançar
desata todo os nós
vive teu sonho
constrói a esperança
e a manhã alegre de orvalho
pura te saudará
Rio, fevereiro de 2012.
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