sábado, 10 de março de 2012

O SEGREDO



na planície estatelada serpenteia o rio / em curvas sinuosas envelhecido / à beira das águas espraiadas /  em busca da razão / na paisagem larga pergunto quem o viu / impetuoso lento impreciso / derramando águas desalmadas / silenciado o coração / quem teria a senha do sentido / da força de viver / deitado agora envilecido / a resposta  talvez fosse ser / o segredo incompreendido / que jamais pode dizer // 


Rio, março de 2012.



CANTADA





amar o outro parece dança / um e um compondo dois / no movimento a um só ritmo / para tornar-se hormônios depois / amar é paz / quando não há ninguém / e dançar nos traz / tudo que a vida tem / a três por dois um beijo / um beijo antes e depois / tudo energia / essa dança ritmada / é movimento / um momento da cantada // 




Rio, março de 2012.




SÓ?



o mar diante de mim
montanhas atrás
entre a terra o céu 
estou eu


Rio, março de 2012.



quinta-feira, 8 de março de 2012

EGO



não te apaixones por ti apenas
encontra teu outro
entrega-te ao prazer de sentir a dois
o que é teu e o que é do outro
somando dois


quem não amou assim não viveu
um outro corpo que não o seu


o universo inclui tua sensibilidade de amar
seres e coisas o mar o deserto
e quem está por perto
ama pois além de ti
acolhe quem por ti vive


não finjas o que não sentes
não ignores quem te procura
como se não houvera fonte mais pura
como se teu corpo fosse tua alma


não há segredo em te achar
declara-te para quem te achou
não mintas


assim te quero
chama


Rio, março de 2012.



terça-feira, 6 de março de 2012

O AMOR



é muito bom sentir o outro
feliz na alegria 
que vem de dentro
e se expressa por fora


a beleza é isso
alegria para sempre


se Yeats não o tivesse dito
a beleza por si se imporia
trazendo alegria
penetrante
olhos a dentro


o amor é alegria
beleza que se irradia
de dentro para fora


a beleza é alegria para sempre
o amor enquanto dura  
é amor eternamente


é feliz assim quem ama 
a beleza do amor
e a alegria de um dia


Rio, março de 2012.






segunda-feira, 5 de março de 2012

PASSADO PRESENTE E FUTURO

a minha mulher
Maria Luiza


não me pertence o passado
deixou de ser vida 
o que sou é um permanente ir em frente 
inovar no caminho
rever conceitos 
antepondo a esperança à lembrança 


sigo para entender
que o passado é ingênua ilusão


se tu me propusesses voltar
a comportamentos de então
minha alma acompanharia a involução  
final de meus dias


melhor do que a vida que tive
trato de adaptar-me 
de ignorar títulos 
de relativizar honrarias
de abandonar vaidades 
de afastar preconceitos
de exorcizar os antigos
e viver novamente


cada etapa tem seus motivos
o tempo não se retrai
ser velho não é ser antigo


a idade do corpo
não é idade mental


vivo agora alegrias
talvez fugazes
no minuto que vale por anos


o sol desperta a manhã 
e me traz alegria
são minhas horas
o tempo que passo nas ruas
as gentes que reconheço
os jovens ousados
sarados em academias
a multidão no futebol
o grito de gol
e a torcida da nação
rubro-negra eternamente


melhor do que a vida que tenho
só outra se recomeço
dos anos de criança

são meus netos 
minha riqueza
chegam soprados na brisa  
e seus perfumes fragrantes 
rescendendo
ao tempo presente que redescubro
desdobrando a esperança nunca perdida

esta é a vida vivida
não esqueci o passado
tenho-o comigo
feliz 


hoje não me pertenço
há um mar onde navego e tento
ultrapassar os escolhos
deixados por quem já passou


não me pegará a nostalgia
não a sinto afinal


"viajar assim é viagem
mas faço-o sem ter de meu
mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu. [1*]  


[1*]Fernando Pessoa


Rio, março de 2012.





O ATO DE AMOR


memória de Eugênio de Andrade 
poeta
vê como o amor
assim tão de repente
penetra-te
e as mãos estrangulam
com força
tua nudez


entrega-te
sem pejo
e quebra o silêncio
com teu grito


tu podes transformar teu mundo 
em alegria de um momento
que te doía
no jogo de claridades insuspeitas
do prazer


deita-te
perde-te
onde só o desejo reinaria
e a ternura 
feminina tanta que tu querias
forte e masculina 
te revelaria


e apenas a lágrima lembraria
o mundo de tristeza em que vivias


Rio, março de 2012.