terça-feira, 8 de maio de 2012

FÁCIL REFLEXÃO



setenta anos passados entendi
que não havia entendimento
consciente de que vivi
um tempo de sentimento


ri chorei muitas vezes sofri
hoje procuro o essencial
mas na contagem geral
ganhei mais do que perdi


mas a vida é isso mesmo
nada que machuque tanto
caminhando passos a esmo
para chegar ao fim no entanto


conformismo diria um
cinismo outro calaria
razão nenhum tem
viver é quase sempre alegria


Rio, maio de 2012.


segunda-feira, 7 de maio de 2012

TESTAMENTO



colhendo ventos passei parte da vida
não vieram tempestades
mas nada guardei do que colhi
e pior
escaparam pelos fundos
a zunir


comprei um cesto para água
busquei água pura da fonte
cuidadosamente  
mas o cesto permaneceu vazio 
criteriosamente 


assim ao aproximar-se o fim
deixo em testamento
um saco de colher vento e um cesto
com a condição
de que meus herdeiros
lembrem-se de mim


Rio, maio de 2012.






RIMA?



fui ler Drummond e aprendi que gula rima com medula
espinhal óssea supra-renal
mas não entendi onde entra a gula
talvez como excessiva fome essencial
ou será o gosto especial com iguarias


na dúvida voltei a formas livres 
de poetar em versos sem rimar
esgrimindo palavras
entre conceitos sabidamente líricos
como dor e amor
tristeza e beleza
ideias e prosopopeias


mas ironia
de repente percebi que rimava
[aqui atrás]


repus a máscara
sério sorri


Rio, maio de 2012.





domingo, 6 de maio de 2012

PALAVRA LIVRE



perplexo não digo qualquer palavra
digo entretanto uma palavra qualquer
que me sai dos lábios
e se escreve em letras
surpreendendo-me na liberdade
que não tenho livre


qualquer palavra não me desperta
uma palavra qualquer instiga-me
porque foi dita
e foi escrita
como numa fuga sem toccata antes


essa palavra é ilusória
parece que me pertence
mas está no ar


não a leiam sem compromisso
que elas comprometem
muito menos quem a disse
do que o leitor que a recebeu
entendam-na se puderem
o que não posso eu


Rio, maio de 2012.






O INFINITO



muitas vezes dobrado no finito
não me dobrarei no infinito


um são meses dias horas
outro minha natureza


essa é minha razão
nenhuma desilusão


assim fui
e contudo sou o que me tornei
a caminho de onde não sei
entendo que não terminarei


Rio, maio de 2012.



AUSÊNCIA



ao teu lado estremecia 
porque sentia
que nada tivesse para te dar


era verdade
mas não o que queria
e me castigava


a distância nunca foi estar longe
mas ausente
ainda assim te amava


Rio, maio de 2012.



AO TELEFONE



...ama que também te amo
sonha que sonharei...


Rio, maio de 2012.