"Porém, pera cantar de vosso gesto a composição alta e milagrosa, aqui falta saber, engenho e arte." Luís de Camões ... assim encontrareis aqui palavras magoadas a tornar o fogo frio e dar descanso a minha alma condenada ...
quarta-feira, 11 de janeiro de 2017
NU
hoje é presente
o futuro será amanhã
e o sol brilhará
sem que eu mova uma palha
estou nu diante do inevitável
há setenta e seis anos
felizes
nenhum mal
sou apenas mais um
sujeito a essa rotina
ou não
São Paulo, 11 de janeiro de 2017
domingo, 1 de janeiro de 2017
"REVEILLONNER"
não canto o ano porque vivo o dia
sucessão de outros dias
antes vivê-los assim
instantes
sem perder a esperança
o ano que entra não sucede o que sai
um fenômeno sideral
como ondas que rolam sobre areia
somos sempre nós mesmos
diferentes na intensidade
diante de mim tenho o horizonte
e cá bem perto minha janela
daqui vejo a realidade
já por lá toda magia
do inconsciente que sonha
o ano passa qual nuvem ligeira
por um momento atormenta minha alma
mas nem o vejo ao romper o novo dia
o sol no alto me ilumina
glória em vida
o que durmo sou quem passa
mas vivo cada dia a alegria
ontem não existe
finjo o que hoje sou
só no futuro há fantasia
e assim penso e assim vivo
o que me é dado é meu fado
o que não é meu não será
reservo-me para a viagem final
"...tutto il passato in un punto
[...] non turberà suono alcuno..." *
"atrás não torno [...] só há lugar no futuro..."**
* variante de Eugenio Montale (Quasi una fantasia)
** variante minha, inspirada em Ricardo Reis (Fernando Pessoa)
domingo, 25 de dezembro de 2016
O TEMPO
é azul o mar que vejo da janela
reina a paz em suas ondas preguiçosas
na indecisão de seu silêncio
uma doçura inquieta em minha vida incerta
escuta-lhe o sussurro manso
supersticioso a trair os meus segredos
indiferente à inquietude do presente
é outro o azul do céu de gaivotas brancas
onde habitam deuses
promovendo cultos e orações em nosso peito
nas quais palpita o impreciso do futuro
e vive alerta o aceso da esperança
falta pouco sinto o tempo
a esgotar a seiva que circula dissonante
no bater de um ritmo hesitante
a soprar o vento
foi-se a juventude bela
soprada pela brisa constante e insistente
esqueço a cada instante a alegria dela
é um novo tempo que não canto
por ser velho e cinza o desencanto
soa forte cada dia o presságio de outros tempos
armadilha da ilusão
que é a vida
Rio de Janeiro, 25 de dezembro de 2016
sábado, 24 de dezembro de 2016
IMPROMPTUS
aos amigos, neste Natal, via Lauro Moreira
da sua presença e do espírito em festa
tiro de improviso a frase incerta
e nem melhor nem mais certa
será a lembrança do vil esquecimento
não mudou o Natal sempre fui eu
descrente mas supersticioso prego
o amor e a paz guias supremos
"que ora se separam ora se ligam"*
não repete a vida duas vezes
a alegria e o pranto
iguais na presença e na saudade
a realidade existe o virtual persiste
a perplexidade domina o pobre crente
mas o coração insiste e lembra amigos
* Eugenio Montale
Rio de Janeiro, 24 de dezembro de 2016
quinta-feira, 22 de dezembro de 2016
DESPENHADEIRO
nesse caminho há um fim
chega sem anunciar
hora ou lugar
mas no ritmo de meus passos
inda não quero chegar
o inevitável fado
não é domínio de ninguém
mas tantas coisas me prendem
nem vale a pena pensar
entretanto é só dele esse ponto
entre forças contrárias do vento
no titubeio que é meu
outro fui outro sou
e nada tenho nas mãos
nessa trilha de um caminho
que se não quis eu trilhei
como ramo que se curva ao vento
reconhecerei o momento
e não o temo
no meu delírio vital
no desolado do tempo
sou quem consciente despenha
entre cardos e poeira
inconsciente no ar
Rio de Janeiro, 22 de dezembro de 2016.
sábado, 29 de outubro de 2016
TRINTA DE OUTUBRO
https://www.youtube.com/watch?v=6z82w0l6kwE
https://www.youtube.com/watch?v=MD6xMyuZls0
https://www.youtube.com/watch?v=QUCsk7KToMM
[selecionar um de cada vez e "ir até"]
https://www.youtube.com/watch?v=QUCsk7KToMM
[selecionar um de cada vez e "ir até"]
a vida não deixa lacunas
é sonho na distância do tempo
ficção no dia-a-dia implacável da realidade
dissipa-se se o quiseres
em quadros efêmeros
mas é luz se não a perdermos
em desolados instantes passados
a casa de minha infância lá distante
ainda é eco de fantasia em "Traumerei"
Schumann reflexivo e melancólico
mas imprevisto e saltitante
na alegria pianística de Paganini-Liszt
solene sonora é a expectativa em "Hammerklavier"
Beethoven na força de ouvir o próprio gênio
mas meu coração é um pensamento feito de saudade
em sons que ouço apaixonado
em notas conhecidas da memória
de Benedicta minha mãe
no devaneio que me deu vida
sentidos e o ilimitado sonho
Rio, véspera do 30 de outubro de 2016
[www.poemasinconjuntos.com.br]
terça-feira, 25 de outubro de 2016
BROA (uma tradução)
o inexorável tempo não nos separa
a vastidão das distâncias ao contrário nos une
na imobilidade infinita
desta pedra
que nós nos somos
(eu mesmo, em "Familia" )
não
nada do acaso
a nossa vinda a Broa é testemunha
de uma viagem que não terminou
mas um cenário vigoroso construído por nós
para reviver nossa história
criação de nossos antepassados
presentes
e fizemos dias de lembrança
na trilha de um caminho a seu convite
para um invisível abraço
nunca uma ilusão
nada do acaso
a nossa vinda a Broa é testemunha
de uma viagem que não terminou
mas um cenário vigoroso construído por nós
para reviver nossa história
criação de nossos antepassados
presentes
e fizemos dias de lembrança
na trilha de um caminho a seu convite
para um invisível abraço
nunca uma ilusão
não canto sem razão
essa fábula é nossa história
um pressentimento de todos
que ouviram nossas lendas
no gotejar do tempo
essa fábula é nossa história
um pressentimento de todos
que ouviram nossas lendas
no gotejar do tempo
não sabemos o que o futuro nos reserva
ao coração e ao mundo
todavia conservamos um sentimento
memória do sol que nos aquece
não em sonhos imersos
mas no caminho real de cada vida
ao coração e ao mundo
todavia conservamos um sentimento
memória do sol que nos aquece
não em sonhos imersos
mas no caminho real de cada vida
essa Luz haverá de nos conduzir
"aonde murmure eterna a água da juventude
[...] mas uma coisa nos afiance,
pai, e será: que um pouco do teu dom
seja, e para sempre, repassado às sílabas
que em nós, abelhas zumbindo, levamos.
Longe iremos e levaremos um eco da tua voz,
assim como se recorda do sol a erva sem cor...”
[...] mas uma coisa nos afiance,
pai, e será: que um pouco do teu dom
seja, e para sempre, repassado às sílabas
que em nós, abelhas zumbindo, levamos.
Longe iremos e levaremos um eco da tua voz,
assim como se recorda do sol a erva sem cor...”
[Ossos de Sepia - Eugenio Montale]
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