"Porém, pera cantar de vosso gesto a composição alta e milagrosa, aqui falta saber, engenho e arte." Luís de Camões ... assim encontrareis aqui palavras magoadas a tornar o fogo frio e dar descanso a minha alma condenada ...
quinta-feira, 6 de julho de 2017
IMPROMPTUS
um som
impromptus de Shubert
[https://www.youtube.com/watch?v=j1rCDLGcVhs]
de onde surgem não vejo
teclas que se encadeiam
descendentes ascendentes
suspiros
medindo tempos
entre o grave e o suave
vêm e me consolam
da aridez de tudo
da insensatez
com a lógica de acordes
lindos por sublimes
onde o talvez não surpreende
e faz de mim teu
suavemente dentro de mim
se entrelaçam notas
e magicamente me encantam
talvez sonhando
um amor sem fim
Rio de Janeiro, julho de 2017
SAUDADE III
tempo é circunstancia
o espaço distancia
a saudade é sombra tardia da verdade
realidade que tangencia a imaginação
o espaço distancia
a saudade é sombra tardia da verdade
realidade que tangencia a imaginação
não se conjugam espaço e tempo
idólatra do passado
a saudade é só presente
não há futuro múltiplo de si mesma
a saudade é só presente
não há futuro múltiplo de si mesma
Rio, 06 de julho de 2014/06 de julho de 2017
FANTASIA?
a fantasia é a cena
não entendo o enredo
creio na indignação
de platéia contra vilões
dói o turbilhão de fatos
nesse deserto
onde não nascem rosas
nem sobrevivem lagartos
ratifico a ética
vagueio entre sonhos
que percorrem a alma
numa história do futuro
recomponho pecados cometidos
reúno forças
o passado serão inexpressivas pedras
Rio de Janeiro, julho de 2017
domingo, 18 de junho de 2017
CÃO DE LATA AO RABO
Minha primeira aventura na poesia,
publicada em "A Comarca",
de Araçatuba (em 1956),
tinha eu 15 anos. Enxertei
um texto (2017) do que resultou
essa combinação explicativa.
não contarei minha história
mas era um cão com lata ao rabo
a ganir
o que vem
depois pode ser um poema
ou não
mas desse começo guardo o grito
contra a lata no rabo do cão
que não é fato usual
nem natural
será um poema
não sei
(2017)
***
Escrever? Nem pensei,
mas senti.
Será deixar o cão arrastar a lata
e ganir?
Alguém amarrou a lata
e o cão em desespero correu
e cá estou a ganir .
É um eco a imagem
que estilhaça o marfim
janelas caladas
cortinas fechadas
nem um relance de olhar"
(1956)
Araçatuba,1956; Rio, 2017
sábado, 17 de junho de 2017
RUÍNAS
cantei o amor cantei vida
cantei tristeza e alegria
cantei o vento e a brisa
cantei tédio e calmaria
cantei tristeza e alegria
cantei o vento e a brisa
cantei tédio e calmaria
cantei o que não tem causa
cantei o jovem e o velho
cantei mágoa
cantei o passar rápido do rio
cantei o jovem e o velho
cantei mágoa
cantei o passar rápido do rio
o tempo passa a hora dói
ir e voltar e nada encontrar
tudo é vácuo e vazio
ao parar no meio do caminho
ir e voltar e nada encontrar
tudo é vácuo e vazio
ao parar no meio do caminho
não conheço o que sei
nada sei
meu castelo ruiu
no sonho bom que sonhei
nada sei
meu castelo ruiu
no sonho bom que sonhei
tempo estranho sem estrelas no céu
nuvens raras tempestades
um turbilhão só de meu
em meio a um jogo de azar
nuvens raras tempestades
um turbilhão só de meu
em meio a um jogo de azar
já não canto
choro
a história se desfez
mas desejo ignorar
choro
a história se desfez
mas desejo ignorar
escadas sempre descendo
sou ateu
sou ateu
subir graus de ironia
é o que tenho de meu
é o que tenho de meu
Rio de Janeiro, junho de 2017
sexta-feira, 16 de junho de 2017
HESITAÇÃO
a eterna busca do porto
linha final
tudo concertado
para um navegar preciso
nada disso é possível
no esticar longo da vida
onde o que não se pensa
não sei donde vem
impreciso
feliz
dolorido
reenviando ao fim
a vida flui e reflui
não cria modelos
não define regras
nem é só exterior
bem não é interior
acontece
irreprimível
diurna e noturna
pode ir e voltar
não tem meio de caminho
nem fim
tudo é começo
Rio de Janeiro, junho de 2017
terça-feira, 25 de abril de 2017
ENTENDER? QUEM HÁ DE?
a Terra continua redonda e o horizonte
(nítido ou não)
tudo é normal
frio seca chuva calor
até a fidelidade no amor
assim somos nós
Netuno governa os mares
Apolo faz musculação
hoje a novidade é ladrão
diurno e noturno (como a Terra em seu jogo com o sol)
o corruptor cheio de verdades
dá entrevistas amenas
na televisão
ou difunde boatos no rabigalo da corrupção
do noticiário convulso
restam folhas de jornal
inexplosivos como pastéis
o país não tem futuro com a tal Constituição
(que me perdoe o inesquecível Ulisses dos Guimarães)
pouco cidadã
a lei não individualiza a pena
e generaliza a salvação
erga omnes
a Constituição inaplicável
engessa o país
com seus intermináveis incisos
inumeráveis
de pouco juízo
ou nenhum
resta o parágrafo da proibição da cachaça
essa mesma que nos atrapalha
e não faz sentido nenhum
mas esse é o nome do jogo
olho a chamada realidade
olhos de não ver nada
no vértice cúmplices associados
na base nenhuma direção
não há luz só confins
perplexidade sem fim
Rio de Janeiro, abril de 2017
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