quinta-feira, 15 de maio de 2008

BOCA



a boca que desejas
não será a mesma que te fala
nem jamais a que se cala

a boca é a perfeita abstração
do que não diz
nunca do que queres
se com ela te alteres
quando cala

a boca não escreve fala

NYC, agosto de 2002.

MUDO



do que me lembro esqueço
quero falar mas não posso



NYC, dezembro de 2001.

LA BOCCA DELLA VERITÀ



la Bocca della Verità não diz palavra
é pedra fria
non c’è niente da dire
nem memória
a palavra é il vuoto della storia!


Roma, fevereiro de 2003.

UM DIA QUALQUER



este poema fala da ilusão de um dia esquecido de uma vida qualquer no tempo desmentido que não tinha esperança lá atrás
este poema sobrevive entre lembranças despojos como remorsos
sozinho na solidão


Londres, maio de 2008

quarta-feira, 14 de maio de 2008

O POEMA



[uma interpretação]
um poema-teoria para Claudia Ferraro

O encanto poético é mágico
palavras que se juntam e partem
para quem as quiser receber
como os sonhos
produtos do inconsciente
para ser encanto.

Magia é o sentido de encanto
uma percepção inexplicável
um ritmo interno
que está na metáfora
nas sílabas justapostas
nos acentos e tons a perpassar o poema.

Às vezes o ritmo é forma
outras tantas é sensivelmente idéia
fundo poético

nunca é lógico
na explicação linear
nem na discussão dialética.
Prosa é razão
poesia é emoção
menos do que sentimento
uma sensação
abstrata sutil sem razão
aparente.
Inicialmente o encanto é do poeta
enquanto escreve
ao descobrir o transporte
que a palavra propicia
entre o inconsciente e o texto
cujas idéias insinua;
acaba por ser do leitor finalmente
quem lê e recria
o mesmo texto
em outra dimensão
que é a da sua cultura
sensibilidade e imaginação.
O poema é livre
o poema voa.

Londres, maio de 2008.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Villa Lobos





Maior que tudo a música é cada coisa e todas elas no seu tempo
sons que me consomem em ondas a derramar-me em vida
a melodia ecoa o som de minha gente

toque do congado
a lembrança de cada coisa passa e todas passam no meu tempo

passa passa gavião
passa cavaleiro
passa

convida a sorte
pula roda viva

soa violão!



Roma, 18 de janeiro de 2003.

BALADAS



quatro Baladas desvendam o segredo que o piano guarda solene

Glen Gould

soa o momento quando o gênio retempera a criação

na tarde o que foi instante
fez silêncio.


Pressenti a balada antes de acontecer

Brahms
em noite de pertencer


NYC, janeiro de 2001.