"Porém, pera cantar de vosso gesto a composição alta e milagrosa, aqui falta saber, engenho e arte." Luís de Camões ... assim encontrareis aqui palavras magoadas a tornar o fogo frio e dar descanso a minha alma condenada ...
sábado, 17 de maio de 2008
CANTIGA
[desengano e paixão]
Oh Senhora que me tens cativo de teus olhos claros
que não me olham nem me verão
oh minha musa tu me tens passivo
triste só comigo
verdade que não dirão
oh bela dona porque não me vês
com teus olhos cheios de razão?
Flechas que não se dirigem nunca chegarão.
Rio, janeiro de 2006.
sexta-feira, 16 de maio de 2008
RETROSPECTO
esperei o que os sonhos diziam
a mangueira no quintal mangas maduras
o verde aroma da chuva
esperei a alegria dos filhos
a gaiatice dos netos
o fruto maduro da idade
a me fazer desejado
de poema em poema
vou encontrando o remanço
os mesmos sonhos e o mar
Londres, maio de 2008
quinta-feira, 15 de maio de 2008
BOCA
a boca que desejas
não será a mesma que te fala
nem jamais a que se cala
a boca é a perfeita abstração
do que não diz
nunca do que queres
se com ela te alteres
quando cala
a boca não escreve fala
NYC, agosto de 2002.
LA BOCCA DELLA VERITÀ
la Bocca della Verità não diz palavra
é pedra fria
non c’è niente da dire
nem memória
a palavra é il vuoto della storia!
Roma, fevereiro de 2003.
UM DIA QUALQUER
este poema fala da ilusão de um dia esquecido de uma vida qualquer no tempo desmentido que não tinha esperança lá atrás
este poema sobrevive entre lembranças despojos como remorsos
sozinho na solidão
Londres, maio de 2008
quarta-feira, 14 de maio de 2008
O POEMA
[uma interpretação]
um poema-teoria para Claudia Ferraro
O encanto poético é mágico
palavras que se juntam e partem
para quem as quiser receber
como os sonhos
produtos do inconsciente
para ser encanto.
Magia é o sentido de encanto
uma percepção inexplicável
um ritmo interno
que está na metáfora
nas sílabas justapostas
nos acentos e tons a perpassar o poema.
Às vezes o ritmo é forma
outras tantas é sensivelmente idéia
fundo poético
nunca é lógico
na explicação linear
nem na discussão dialética.
Prosa é razão
poesia é emoção
menos do que sentimento
uma sensação
abstrata sutil sem razão
aparente.
Inicialmente o encanto é do poeta
enquanto escreve
ao descobrir o transporte
que a palavra propicia
entre o inconsciente e o texto
cujas idéias insinua;
acaba por ser do leitor finalmente
quem lê e recria
o mesmo texto
em outra dimensão
que é a da sua cultura
sensibilidade e imaginação.
O poema é livre
o poema voa.
Londres, maio de 2008.
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