sábado, 9 de outubro de 2010

TÉDIO





escrevo para esquecer o tédio
esse vazio que me enche os dias
alheio a tudo mas querendo estar
onde tudo vive

no cego entendimento da tristeza
recordo a alegria do que foi
ao vento que dissipa indiferente
sonhos e loucuras
para reter os fundamentos do vazio

ouço à distância o eco do silêncio
leio a plenitude da beleza
do que não diz quando se cala
lúcido no escuro da incerteza

e quantos os que já aqui viveram
sabem do frio afastamento
do real e seu fermento
sombras no duro enfrentamento
entre o presente e sua ausência
que me atormentam tanto

o fundo olhar da medonha criatura
ocupa o espaço da verdade
fingindo promessas de futura eternidade
mente para esculpir a escultura
do nada que virá
depois do tédio que tristonho já está

Rio, outubro de 2010












escrevo para quebrar o tédio

que me entremeia a vida

enquanto a chuva alaga

e agoniza um dia cinza


escrevo para celebrar a vida

que em meio ao tédio

resiste à chuva e secamente

me expõe ao sol e ao sal

obrigando-me a ser

o bem e o mal






sexta-feira, 8 de outubro de 2010

PORQUE?






porque te fechas por quê
te recusas porque
não te encontras porque
não te procuras porque
se não te abres
te negas o outro porque?

por que te quer?

Rio, outubro de 2010


quarta-feira, 6 de outubro de 2010

FRUSTRAÇAO




[um poemeto dedicado à frustração]



de tanto que eu queria

o que teu amor não contempla

de tanto desejar o que não me podes dar

se mo desses agora

antes que eu sentisse morreria.


Londres/Rio, abril de 2008/outubro de 2010

[original londrino, revisão carioca]





domingo, 3 de outubro de 2010

RÉPLICA



Nydia Bonetti

jamais serei moderna
atual
contemporânea

sou velha
porque velha nasci

se demoro a morrer
morro no tempo certo

antiga
como sempre vivi.

Réplica


...tudo é cruel na vida
menos a vida bem vivida
porque desde sempre só a temos
uma
assim tudo se ajusta
a ser o que deve ser
sem reparo nem recusa
uma linha cujo fim não vemos
sem mistério um fim apenas
se sobrevivemos com voz clara
em cada um de nossos bons poemas...

Rio, outubro de 2010.



quinta-feira, 30 de setembro de 2010

IMPROMPTUS



[para Bel Borja]



além de vós dizia o Poeta o céu não passa
nem por detrás se esconde a vida
mas defende-se a eterna pedra
do sol que é a verdade
o calor e a dura lida

somos filhos da eternidade
pedaços do nada que é tudo
sobrevivendo à crueldade
do que não podemos e não somos

atrás de vós estais vós mesmos
ao lado e à frente onde estiveres
um universo bastante que se finda
no estreito limite de nós mesmos

Rio, setembro de 2010





terça-feira, 28 de setembro de 2010

INDAGAÇÃO






um dia entrego o resto do que fui à terra
para não mais pensar na angústia que trago desde que nasci
e saberei então que nada mais sou do que parte do universo
em que me perdi

fosse eu uma pedra não teria a consciência do significado nenhum do quanto fui
seria pedra uma entre tantas na poeira cósmica em torno de um dos tantos sóis
e jamais questionaria o tempo a conduzir-me a vida

nem o tempo nem a pedra mais seriam do que aquilo que são
criaturas do homem a justificar o sopro que os tornou pensantes
a indagar de tudo origem e fim
como se fim houvesse
no que origem não tem senão no movimento cósmico
incessante em seu esforço de organizar o caos

entrego-me a palavras com algum nexo
mas não encontro a razão
de me sentir na solidão em que estou
quando ninguém me responde nem a pedra
o que tenha sido minha humana condição

Rio, setembro de 2010






segunda-feira, 27 de setembro de 2010

DISSONÂNCIA






desfolhei cada palavra do enigma da incompreensão
e não entendi a vida
mas canto enquanto a tenho comigo
e não estou alheio a cada gesto em todos que compõem meu universo

diante de palavras amo as belas
sopro as raras para que não fiquem
e sonho que meu canto um dia ecôe
o rumor do humano

tocado pelo sopro do que não vejo além
temo a pessoalidade míope do que sinto
em notas dissonantes que buscam concordância
entre o sonho e o real

e dói-me a dúvida de sobrevivendo embora
tudo não passe de um vício
e o encanto dessa música que para mim é tudo cesse
aqui mesmo depois do ponto final

Rio, setembro de 2010