sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O DISCURSO DE MEUS ANOS


Luis de Camões 
[entre aspas, trechos do soneto 108 da Lírica]


"errei todo o discurso de meus anos"
ai de mim neste fim tão combalido
não me direi apenas que errei
serei mais um de enganos cometidos
morrer sem apelo só sofrido


tu não me vês nem eu te vejo
mas sem pensar apura-me o desejo
penoso devagar fundo esperançoso
de amar esse amor suspiroso
de "erros meus, má fortuna, amor ardente"


por poesia mais que eu fizesse
sem futuro não sinto nem mais quero
em meus cantos revelar a minha pena
"tudo passei; mas tenho tão presente"
o grande amor que vivi tão docemente


e mais erro quanto mais escrevo
não mais farei o que nem sei
se verdade foi ou mentiroso
o amor ou minha dor
de que "não vi senão breves enganos"
vem amor vai amar vem
a ansiedade repetida
ai de mim 
"errei todo o discurso de meus anos"... 


Rio, fevereiro de 2012.








segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

ESTE CENÁRIO É UMA BELEZA




...depois de um ano de silêncio
ouço agora o tamborim
e passos na orla de ruídos
onde reina o surdo 
a ressuscitar vivos e mortos...
passa o povo ignorando a solidão
tudo é paixão
de arrebentar o coração

este cenário é uma beleza
não há tristeza
é carnaval neste meu Rio

Rio, fevereiro de 2012.




domingo, 12 de fevereiro de 2012

TRILHAS E CAMINHOS



não há um caminho
mas uma trilha feita ao caminhar
não existe um destino
mas um lugar onde chegar


"qualquer caminho leva a toda parte" [FP]
nenhum segredo
que escolher é consciência de saber 
caminhos que dissociam
todas as partes da abstrata escolha
que é tua


o ato de excluir é consciente
afasta cardos e espinhos
incluir está em ti
é tua trilha
por onde levas tudo que tens
ao teu lugar


Rio, fevereiro de 2012.










sábado, 11 de fevereiro de 2012

O SEGREDO



que sabemos do que se esconde atrás das nuvens
onde o tempo passeia em fuga ligeira


sei que no éter dormem os sonhos
que a noite traz como desejos quase sempre em segredo
repetidos como ecos de pensamentos abstratos
sem palavras 
entre beijos e lágrimas

pode ser música
que nos chega pelo sentimento do mundo
como gotas de chuva
quando a nuvem pesa e nos diz
estou aqui 
choro


imagino-me dobrando ali a esquina inexistente
num céu do outro mundo
em cor azul da liberdade de viver 
o desejo conhecido 
e o segredo
indecifrável de amar


Rio, fevereiro de 2012.








A CASA DA SAUDADE



pedra sobre pedra construirei
um dia
a casa da saudade


o projeto existe e está em curso
pois conheço seu futuro
que às vezes noturno me aparece


conheço cada pedra e junta
coladas no sentimento impossível
de um amor eterno


a casa é sólida
ilusoriamente plantada sobre a dúvida
perversamente voltada para a noite


nela vivo paixão que adere à pedra
para assegurar-se de que é possível
o amor que derrota
passageiramente
a solidão


às vezes perco o senso da saudade
para viver a esperança
de que um dia uma noite eternamente
esse amor perdure
e eu derrube os muros que me cercam


mas a ilusão é menor que a realidade
e a casa sobe
inapelavelmente
tem telhados e porta
janelas que se fecharão
e lá trancada comigo chorará
saudade


Rio. fevereiro de 2012.






ILUSÃO DE JUVENTUDE



vivo a ilusão da juventude retomada
inútil sensação passageira
do tempo irreprimível


quantas vezes avanço para viver amanhã
as percepções de ontem
reconduzido ao tempo perdido



tantas arrependo-me por amar
equivocadamente
intenso como o amor de ontem



muitas vezes sempre indeciso
noto olhos espantados
de quem não percebe o sonho


todos os dias entretanto a solidão
dissonante do amor
diferente de amar


meu caminho é meu caminho
entre pedras e aclives
despenco a prumo


Rio de Janeiro, fevereiro de 2012









terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

AH SE EU TE PEGO



ah se eu te pego
se eu pudesse perenizar o que não tenho
e o desejo ultrapassasse a realidade
ah que prazer eu teria aqui


ah se eu te pego
quem sou seria outro
a juventude voltaria ao corpo
e tão cedo não me veriam morto


ah se eu te pego
sei que ficaria louco
tendo-te em meus braços
de gritar de prazer
dormiria rouco


ah se eu te pego
ah se te pego
o sonho que terei sonhado
tornar-se-ia realidade
para viver sem pensar na idade

ah se eu te pego


[e mudo o tempo não emudeço]



quem sabe
se te pego
serei feliz aqui...





Rio, fevereiro de 2012.