domingo, 26 de fevereiro de 2012

NAVEGAR É O PERIGO



amamos o que desejamos não o que temos
sonhos inacabados
a tocar a fantasia dos mais puros ideais
do horizonte sem fim
do céu azul de verão
da neve nas montanhas
da chuva na semeadura
da fartura na colheita
do verso não escrito
do entendimento entre os homens
do amor que move o mundo


a glória e a riqueza desse mundo entretanto nada dizem
apenas entontecem
para destruir o gosto de sentir


não direi o que não posso
mas entre o céu e a terra
é mais rica a fantasia

só o desejo vai além


deixo-te desvendar
o que minh'alma toca
em sua inércia de pensar 
e seu desejo de amar


que céu 
que horizonte sem fim
que amor que move o mundo
vale é o amor de seguir rastros de teu barco
no risco de perder-te em mar que os desfaz


miragem solitária ilha 
nesse mar onde persigo
o céu de te encontrar


navegar é preciso diz o bardo
direi com ele também
que navegar é o perigo
de qualquer dia chegar
onde não quero aportar


não deixarei de remar
por ti remarei contra a corrente
a cantar
a minha ânsia de amar

nada mais direi 
nada tenho a declarar


Rio, fevereiro de 2012.




sábado, 25 de fevereiro de 2012

FOME [improviso]

"a fome é uma canção silenciosa
a sair pelos olhos"



...a fome Nydia são lágrimas de exaustão
são olhos sem brilho
é grito do coração
a fome é flagelo
de desumana feição
é horror da servidão
o silêncio que ouves é grito
a canção oração...

Rio,  fevereiro de 2012. 




MENSAGENS AO MAR



sobre as ondas do mar flutua a lembrança
quebrando na areia grisalha
o choro da saudade 
para voltar em nova onda que vem
   
o vem e vai é meu olhar  
do oceano nesse vai e vem


mensagens perdidas no fundo 
nada dizem por não saber aflorar
são palavras  
no verde que arrebenta cinzento
são o caos aparente do vem
que se arrepende ao chegar 
e logo vai
ficam como memória no fundo 
esperando que o tempo as faça chegar


como o poema repousam 
até eclodir em uma forma de pensar 
e sentir
mesmo que não queiram desvendar
o segredo mais íntimo
daquele que é
o bilhete de amor
ou desespero da dor


alma que flutua no mar
soprada ao vento a navegar
sem rumo na solidão
naufragada sob águas azuis
verdes ainda para à terra voltar


não morre inacabado o que resta
onde o segredo sussurra
na brisa rasante 
ouvido pelo lobo do mar
quem os guarda
para escutá-lo confiante


a música que vem de longe desvelada canta
o argonauta que aguça os sentidos
para conhecer os segredos de quem já viveu


não interrogues o segredo
é amor que não morreu
e desperta ao sol da manhã    
é a dor que abate quem vive
na ilusão de estar vivo em plena solidão  
não perguntes
nada perguntes
amor e dor são parceiros 
a esperar uma praia branca 
para confundir e derramar-se


quem sabe essa mensagem perdida
na água a chorar o tempo que passa 
[e se perde] nesse vai-e-vem
quem sabe a mensagem me exorte
a cantar
essa música esse canto essa onda
a marulhar


Rio, fevereiro de 2012.








sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

IPANEMA



hoje ao por do sol vi Ipanema
com olhos de amante onde tu és tudo
sobre o dourado prata de mar
na beleza e alegria de amar


ondas brancas derramavam-se n'areia
e a ti chamei amor
quando o belo é teu
e tu meu céu


por ti me iludi em tempos idos
e desse amor vivi
a paixão de existir


por ti passarei à eternidade
essa mesma ao cair a tarde
que me leva a meditar e te sentir


Rio, fevereiro de 2012.





ENIGMA



talvez numa tarde de sol
encontre-me com minha sombra
por sobre mim ao meio-dia
talvez reconcilie amor e vida
no calor desse dia


se eu fosse como desejaria ser
minha sombra fantasma de mim
colaria em uma peça o transcendente e o presente
para que a lucidez tomasse conta enfim
do que sinto e do que penso


nasci para viver intensamente o instante
aquele que não se pode fantasiar
que existe como o destino 
onde as escolhas foram aleatórias
mas a ele cheguei


observo-me nesse átimo
como quem é capaz de segurar a centelha
daquela reconciliação entre o concreto e o aparente
da sombra que se ocuparia de mim
sol a pino cortando ao meio o dia 


sombra centelha átimo
um momento de vida
no concreto prodigioso
do que sinto e do que penso
finalmente livres no que hoje sou 
       


Rio fevereiro de 2012.



terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

CLARIVIDÊNCIA



se escrevo é porque não sou indiferente
sinto pressinto guardo comigo
o que a palavra não consegue expressar


mas o amor acontece expressamente
nos cinco sentidos físicos
na intuição e na clarividência


um dia desaparecerei
ninguém mais vai me ver
desolados poucos ficarão
e naturalmente logo esquecerão


seja como for ainda estou aqui
na forma que fisicamente sou
naturalmente como me vejo
e sei que existo


dos amores que tive
restará saudade
dos inimigos que alimentei
cuidará a eternidade


Rio, fevereiro de 2012.






TESTAMENTO



dura porque tem de durar
acaba quando tiver de acabar
ao longe vejo um navio no mar
e gaivotas que o seguem atrás


sei que um dia passarei além
e nada mais fará sentido
exceto que razão não há
para me despedir


voarei o voo longo de não mais voltar
mas a lembrança do que deixo
ficará no mar


Rio, fevereiro de 2012.