tudo vale para explicar a vida
ainda que não dure
o momento
instante de chegada
o instante
surpresa da partida
o tempo sopra enquanto dorme o vento
o absurdo ser para não durar
o que me faz amar mais do que viver
de onde vim para me tornar assim
presa do vento a soprar o tempo
de que pedra vem o meu encanto
por quem canto?
Rio, março de 2012.
quem ama não mais procura
a sílaba para compor o seu poema
ama apenas
e deixa-se encantar pela beleza
do "adagietto" da quinta sinfonia
saída do silêncio
Mahler
sustido sustentado
na brisa que me salta em versos
induzindo ao sonho
de senti-los fluir em sustenidos
procuro um verso para pesar do outro lado esse "adagietto"
Rio, março de 2012.
a um jovem amigo
uma chave é o passaporte
entre a rua e o aconchego
de tua casa
em pouco tempo
teu calor aquecerá
a matéria de teus sonhos
do que foi pedra aflorou
o macio fluir doce da água
que hoje é natureza revelada
sou testemunha dessa caminhada
do quase zero a pontos no infinito
creio ter sido o tempo
o tempo foi quem abriu a porta às evidências
onde havia desejo e frustração
havia a base da relação matemática
entre o engano e o desengano
que se excluem no erro
para explodir
e recriar um novo ser
teu juízo teu sorriso
muita luz
a verdade e a razão
faz sol é novo o dia
toma a chave do futuro em tuas mãos
é tempo de cantar tua canção
Rio, março de 2012.
a um amigo
tu és o que és
o que podia ter sido e não foi
gera filosofia de vaga interpretação
somos quem somos
seremos outros dia-após-dia
na vertigem da formação
de nossas impressões digitais
serás teu sonho
serás quem o idealizou
serás quem queiras ser
teus atos responderão por ti
o passado é feito papel
liso imaculado
se fizestes por mantê-lo intacto
amarrotado
se perdestes episodicamente o rumo
agora toma as folhas que amarrotastes
rasga-as atira-as ao lixo do tempo
recuperastes o prumo
crê em ti
estás em pé como homem de fé
crê em teu poder de fazer
tudo que sonhastes acontecer
tua vida é uma viagem de ida
resoluto avança
sê feliz
Rio, março de 2012.
um dia que se soma a outros
e faltará à frente
penso no que resta
pouco
e não será muito
retomar a vida
com a fúria do minuto
"carpe diem"
não há solução fora o prazer
do céu azul e do verde mar
espaços que fascinam
e ficarão
no seu papel de encantar
levarei comigo
a imaginação
a percepção
a memória
o sentimento
distribuídos entre alma e coração
para além não sei
mas que importa
se o que sou está aqui?
atrás ficou o passado
tempo que no presente amei
agora o presente parece passado
instantaneamente
o que me faz ciumento
do minuto que vivo
"carpe diem"
Rio, março de 2012.
fiz hoje exames de rotina
rio que procura o mar
dormi na tomografia
descansei de me excitar
com a ideia que me persegue do dia em que nasci
vou seguindo sem apuro
não sou capaz de ter medos
do que não posso conter
o tempo vai corroendo
dias minutos segundos
são dados a não pensar
sou hoje mais livre que ontem
amanhã me libertarei
é mentira a emoção da morte
verdade é a canção da sorte
que eu tenho por viver
o mar que se me depara
as palavras o amor o poema
o sol amarelo limão
nunca os senti tão belos
os exames ah os exames
têm nome?
Rio, março de 2012.
ser jovem não é um programa
é uma vida sem prazo
sem tempo de fenecer
a juventude é beleza
a alegria de ser
não se improvisam os anos
passam sem perceber
coisas pessoas lugares
para não mais se ver
pagam sem receber
ah que saudades eu tenho
do tempo que já passou
tanta esperança perdida
sonhos amores a vida
pra ser o que hoje sou
escolha não tive no rumo
cheguei só por chegar
sem porto neste lugar
tenho no entanto meu prumo
ainda talvez saiba amar
Rio, março de 2012.