quinta-feira, 30 de março de 2017

QUE FAZER



que faço eu a escrever poesia
é a pergunta que se equilibra em outra
que faria eu se não existisse vida

assim perplexo lembro-me das palavras

que me servem para criar versos
regressos de mim mesmo à minha liberdade

vim para ser

se poeta não sei
mas é com poesia que tudo faz sentido
desdobrando metáforas pedinte de ideias
ouvindo o vento que sopra sossegado 
olhando estrelas comunicando espaços
que os olhos não vêem
mas as palavras sentem

tudo o mais nada vale o verso

se deprimido vazio isolado em vida
entre o nascimento e a morte
deixo o abismo e não vivo o universo 

palavras (autênticas)

ideias (falsas)
não quero viver sem as conseqüências
de organizar o espaço e o tempo 
e preparar-me para o indesejado fim
dessa verdade que me dói os ossos

que farei se não escrever poesia



Rio de Janeiro, março de 2017



terça-feira, 28 de março de 2017

MENOS UM DIA




bebi a vida 

e até hoje me embriago
um sem remédio que se remedeia
a cada dia na seqüência de ser
isolado às vezes 
outras agregado como sinfonia

fosse tudo igual seria diferente

onde estou seria sempre o mesmo 
todo dia
assim na infância o mesmo na velhice
sem esforço igual 
um ao outro 

mas não é ou talvez não seja


um momento de ansiedade

uma alegria com a idade
a conclusão antes do fim
ou o início com paralisia

vem a destruição sem construção

vem o calafrio em dia quente
vem o calor em pleno inverno frio
vem a tristeza intercalada ao nada
vai e vem 
sem lógica ou exaltação

resta um grito

talvez cansaço
desse período noturno
das forças inelutáveis dos astros
que giram sobre si mesmos
e transladam em torno de um sol

ah...o fim é o foco

do que p'ra mim nem começou
e sou bebido sem contradição

ai


Rio de Janeiro, março de 2017

domingo, 19 de março de 2017

CANSAÇO




há o desejo de buscar saber
no abismo do inconsciente
a razão do cansaço
que me domina o corpo
e invade a alma

não é o espaço onde estou que me incomoda
mas o tempo árido
em sua corrida do passado ao presente
que não me permite perceber o futuro
incógnita função de muitas causas
e dos imponderáveis

não sei

sei que vivi
no íntimo conheço-me
não ignoro meus pecados
nem por eles me penitencio
foram instantes
e tenho a inteligência deles

ouço os ecos de outros muitos momentos
de alguma generosidade
e suas promessas que se realizaram
tenho o sentimento deles
e do que deles transcende
este sou eu
tentativamente dominante

mas o cansaço existe
e não há entendimento que o supere
exceto o silêncio do sono
que recupera momentos
nos sonhos que ainda restam em mim

Rio de Janeiro, março de 2017

sábado, 18 de março de 2017

"INFINITO ÍNTIMO"(*)




a solidão do silêncio aguarda o fim
severo no infinito de todas as coisas finitas
que desaparecem num cerrar de olhos
e desacreditam o próprio conhecimento

onde quer que estejamos morremos
no silêncio ruidoso do sono
e dos tormentos do inconsciente
ocultos no abismo do pensamento

e se a noite escura de um escuro céu
esconde provisoriamente os pecados
relembro-os dolorosamente 
confrontado com o inesperado vazio
da solidão e do silêncio em que nada me consola 
no desequilíbrio que é só meu
enquanto tudo se move e me isola 
no "infinito íntimo"(*) do que sou eu

Rio de Janeiro, março de 2017

(*) Murilo Mendes

quarta-feira, 15 de março de 2017

SONAR




desde um útero de ruídos
há contato com o mundo 
externo ao feto mas buliçoso 
que nos dá à vida

mesmo os meus pensamentos
que dão inteligência à pedra
dialogam a linguagem da imaginação

o vento que sopra do mar assovia
a brisa chora
o marulhar das ondas esparramadas
tudo fala
e me sinto vivo porque ouço

a liberdade é nossa
de amar o que no outro reverbera
e a solidão da vida retempera
no calor do fogo que crepita e estala
para encher os dias de alegrias

identidade é o amor que grita o sentido de meu verso
assim quem sou no nexo das palavras
a transformar virtual em real
na rota de entender os sons
reta como o sonar do que vai
e sempre volta

Rio de Janeiro, março de 2017

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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

TORMENTA



venta o vento do nada
sopra fria a solidão
enquanto chove lá fora
a praia rasa é silêncio
ouve o turbilhão
de ondas a seguir o vento
invisível dessedenta ruas
quase mortas 
coração aflito 

paisagem de um verão irregular e raivoso
contra os penhascos de lisas montanhas
encobertas do cinza de nuvens hesitantes
sobre o verde pálido do que resta
da exuberante floresta

a raiva do vento assovia um louco soprar
dobra redobra domina palmas inumanas
antecedendo o beira-mar vazio
como a tormenta de mim

todas as convergências perdidas
só o lamento do vento 

Rio de Janeiro, fevereiro de 2017

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TEDIO INDESEJADO





tu que te abstrais dos interesses do mundo
tu que nada buscas
tu que não tens curiosidades
tu que encontrastes o isolamento
tu que és mudo
tu que és cinza
tu que atingistes a idade limite
tu que não percebes o gosto de nada
tu que não comes
tu que és indiferente ao cheiro
tu que ignoras os perfumes das flores
tu que não vês a beleza na pedra
tu que te afastas da floresta
tu que não ouves o marulhar do mar
tu que não te animas a deixar a casa
tu que nada sentes nem dores
tu que não encontras prazer em novas atividades
tu que abominas o contato humano
tu que nada ouves porque não queres ouvir
tu que te anulas
tu que foges do sol
tu que te identificas com a lua
tu que és parte do meu tédio
desaparece de minha vida
não te quero por perto
morre falece
desaparece

Rio de janeiro, fevereiro de 2017

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