quarta-feira, 27 de julho de 2011

MATINAS









a luz do sol sobre o azul
era um calor quase frio
e as ondas grisalhas
rolavam mansamente lá


esse dia [como cada dia] 
é promessa 
que se repete
até o sol afogar-se em chamas
à sombra dos Dois Irmãos


fluindo o tempo
vêm os sonhos
a voar em plena manhã
se houver vento


de minha janela vejo
céu e mar 
o que sinto parte
nas asas de uma gaivota

Rio, julho de 2010.



sábado, 23 de julho de 2011

"VAGA HISTÓRIA COMEZINHA" [1]



triste o tempo
que como nuvem passa
e nos engana ao parecer ficar


era eu pequeno e alimentava sonhos
que ventos desfaziam
em nuvens brancas a se movimentar


mas sonhos ficam e as nuvens vão
e nada esqueço da magia de os fazer reais


aos quinze anos conheci o amor
e o amei como à beira-mar
ainda hoje sinto-me amar


aos vinte anos já estavas lá
a me dizer tranquila 
espera
o que tem que ser será


entre os vinte e trinta 
e-xas-pe-ra-da-men-te desejei
o caminho do saber
em busca da razão de ser


duvidei do sonho
para viver o instinto 
distanciando o amor e a razão
falsas escolhas que o tempo fez passar


tudo foi sonho 
pois tempo houve de abrir janelas
deixar entrar o ar 
e a verdade 
uma de cada vez 


ah que saudade tenho 
de todos os enganos e todas as certezas
de toda perda e de todo ganho
que afinal me diziam tudo
sem mo revelar


deixo o passado resguardado à sombra
para saber o que de bom me trouxe
e tudo o mais a não reviver


ah que saudade dos meus vinte anos


a velha mangueira ainda está lá
acariciando a lua 
contando estrelas
desse tempo enigma que nunca decifrei




Rio, julho de 2011.




[1] Frase de Fernando Pessoa:
"...Vaga história comezinha
que, pela voz das vozes, era minha...
Quem sou eu? Eles sabem e passaram..." [n.608; 1928]

MEUS VINTE ANOS



ah se eu pudesse voltar aos vinte anos
e de novo vir sentir o mundo
retomaria todo meu caminho
e da juventude guardaria o tempo


foi tanta coisa que pude viver
tanta alegria que me descobri
me lembro hoje do primeiro livro
e de valiosos outros que encantado li


ah meus vinte anos de sentimentos puros
quando desejar era poder ser
e todos sonhos capazes de viver
faz tanto tempo...


nada lamento do tempo que perdi
a perguntar-me que Homem ser
pois foi graças aos meus vinte anos 
que hoje sei quanto importante é ser


Rio, julho de 2011.



sexta-feira, 22 de julho de 2011

AUTOR POEMA LEITOR





é o poeta que faz da palavra música
mas só no sonho encontra a perfeição
para tornar a poesia ave


é dentro de ti poeta que a poesia brota
é em tua alma que o poema mora
é no seu vôo que a palavra alcança
o leitor sensível 


o poema é ave




Rio, julho de 2011.



quinta-feira, 21 de julho de 2011

ORAÇÃO A UM AMIGO



a um amigo
invoca teus deuses a matemática o cálculo
a física dos sólidos
finca pé na geologia afirma tua engenharia
conhece o mundo
ora por nós no sonho irrealizado
abre as portas da tua casa
deixa entrar o amor a doçura e a esperança
recebe a lealdade vive da verdade
constrói tua vida com a matéria de teus sonhos
delimita a estrada esquece as sombras do passado
repudia ações equivocadas mata as conseqüências vis
vive a plenitude do caráter
trabalha a identidade
repousa na inteligência produz no teu trabalho 
medita diante da incerteza
e avança
que a vida tua quer dizer vitória
que o futuro é teu
e a luz brilha no que fazes consciente
e se demora

que a beleza é fonte de alegria
mora na alma aberta e livre
de tua natureza...


Rio, julho de 2011.



quarta-feira, 20 de julho de 2011

AMIGOS



não são muitos meus amigos
um a um conto nos dedos
deles espero lealdade
a carinhosa verdade
respeito mútuo 
e a valiosa amizade
só assim 
um amigo vale a pena


qualquer um não é amigo
amigo não se improvisa
um qualquer é um qualquer
que se encontra nas esquinas


o que no amigo o faz amigo
é atenção é gentileza
é caráter e equilíbrio
é a mão carinhosa que socorre
sustenta  promove e afaga


a amizade  é adesão em liberdade


amigo se comemora cada dia
nos cuidados e dedicação
ter um amigo é privilégio
por isso abraço meus amigos 
hoje e amanhã
e consciente 
tentarei guardar por toda a vida
os bons amigos
assim mais abraços lhes darei


Rio, 20 de julho de 2011.









terça-feira, 19 de julho de 2011

O QUE É O AMOR







há tanta coisa que não sei
do dia-a-dia não da alma humana
é tanto relativamente
que saber o que sei é não saber


mas da alma se eu pudesse ouvir
o mínimo som do irracional
entenderia o mundo
reforçaria consciente minha fé


o amor é porque acontece
diz o bardo enfarado
dessa bruma escura
que entretanto canta porque não esquece


mas o amor não é o dia-a-dia
racional reto burocrático
mais parece instinto e animal
nem é claro nem é mesmo prático


que se quer amar é certo
que dele fala o coração
então alma esse dom incerto
é desejo por vezes boa ação


nem animal nem nada racional
ele aparece
alegre tantas vezes
surpreendente quando é só tristão


o que move quem ama me pergunto
que trilha é essa que nos leva
de lugar algum a nenhum lugar
e mesmo assim vivemos de amar?


te amo ouço de quem não quer amar
te espero digo sem me recusar
te afastes pede com distante olhar  
fique ordena aqui quero ficar


tudo quanto sei é que não sei
e hoje não creio saberei


Rio, julho de 2011.